Sentado à mesa do seu restaurante
favorito, Marcelo esperava pelo namorado e refletia sobre as mudanças
imprevisíveis dos últimos dois anos. Eram lembranças nem sempre agradáveis, mas
indiscutivelmente significativas, que transformaram tanta coisa de um jeito rápido
e inesperado.
Olhou para uma mesa no canto do
restaurante e pôde ver a si mesmo ali sentado, conversando com Bruno por longas
horas, bem semelhante ao casal que agora se olhava de um jeito afetuoso. O
rapaz beijou a mão da garota e ela sorriu de um jeito comovido, escancarando
que estava apaixonada.
Sua relação com o namorado também era
assim, cheia de cumplicidade e um amor sem medo de ser visto e conhecido.
Embora o namoro estivesse numa fase difícil, ele acreditava que ambos não
suportariam ficar distantes por muito tempo. Sim, estavam afastados há alguns
dias, mas ainda eram namorados. Tratava-se apenas de uma crise momentânea. Se
Bruno tinha o convidado para aquele restaurante, Marcelo imaginava que em breve
estariam reconciliados.
Mas os minutos estavam passando e nenhum
sinal de Bruno. Como ele costumava ser pontual, Marcelo achou justo relevar o
seu primeiro atraso.
– O senhor já foi atendido? –
perguntou-lhe um dos garçons.
– Não, obrigado. Estou aguardando
outra pessoa.
O casal de namorados da outra mesa se
levantou e os dois deixaram o restaurante de mãos dadas. Marcelo adorava esse
gesto. Sempre observava com ternura pessoas que caminhavam com as mãos
entrelaçadas. Era um gesto simples, sem malícia e muito significativo. Desejava
que um dia todos os casais apaixonados tivessem liberdade para dar as mãos,
fossem hétero ou homossexuais.
Como
as pessoas podem se importar com o amor entre duas pessoas?, perguntou-se mais uma vez, sem
chegar a uma resposta.
Há poucos meses ele tinha assumido
publicamente o namoro com Bruno, disposto a lidar com as oposições e tratar com
indiferença todo pessimismo e negatividade. O desejo de ser honesto e autêntico
em seu relacionamento era mais forte que a raiva dos intolerantes.
– Não estamos fazendo isso porque precisamos
nos justificar ou esperamos a aceitação das pessoas – escreveu Bruno, algumas
semanas antes, na legenda de uma foto postada nas redes sociais. Ele ainda
acrescentou: – Assim como todo casal apaixonado, só queremos celebrar nossa
alegria e compartilhar essa felicidade com as pessoas que se importam com a
gente.
Marcelo consultou o relógio novamente
e fez cara feia. Trinta minutos era muito tempo. Decidiu esperar um pouco mais antes
de ligar para o namorado.
Outro garçom se aproximou, entregou o
cardápio nas mãos de Marcelo e perguntou se ele desejava pedir alguma bebida. Deduzindo
que o garçom estivesse sugerindo gentilmente que ele não demorasse em fazer o
pedido, Marcelo pediu uma Coca-Cola para ganhar um pouco mais de tempo. No
minuto seguinte, o rapaz voltou com o refrigerante.
– Algo mais, senhor?
– Não, obrigado.
Depois do primeiro gole, ele olhou
para taça em sua mão e automaticamente se lembrou do seu primeiro encontro com
Bruno, dois anos atrás.
Os dois estavam na mesma festa de
aniversário, mas ainda não se conheciam. Marcelo acompanhava uma amiga e Bruno
era um dos convidados da aniversariante. Embora tivessem amigos em comum,
aquela era a primeira vez que estavam juntos no mesmo lugar.
– Deixa eu te apresentar um amigo –
falou Ingra, amiga de Marcelo.
– Amigo? – ele perguntou,
mostrando-se tenso.
– Relaxa, Marcelo. Você não tá na
igreja.
Puxando-o pelo braço, Ingra o levou
até seu amigo. Marcelo ainda conseguia lembrar a camisa vermelha que Bruno
estava usando e também a sua expressão um pouco desinteressada ao
cumprimentá-lo. Não foi difícil perceber que o rapaz não estava muito a fim de
papo, então preferiu se afastar e deixá-lo à vontade com os outros convidados.
Ainda assim, vez ou outra, Marcelo o observava discretamente e notava que seu
olhar era correspondido.
Quando chegou o momento dos parabéns,
os pais da aniversariante propuseram um brinde à filha. Todos os amigos
levantaram as taças e começaram a brindar entre si. Tudo estava normal, mas
quando Marcelo se aproximou de Bruno para brindar com ele, as duas taças se
partiram completamente.
Todos ficaram assustados e houve um
silêncio absoluto. Mas então, quando perceberam que nada grave tinha
acontecido, a aniversariante e convidados começaram a rir, emitindo sibilos
maliciosos.
– Espero que isso não signifique
trezentos anos de azar – disse Marcelo, tentando disfarçar que estava constrangido.
– Espero que não, mesmo! – retrucou
Bruno e depois fez graça: – Já tenho uns cinquenta anos na fila.
Então os dois riram da situação,
ainda assustados com a coincidência. Observando as duas taças aos pedaços no
chão da sala, eles perceberam que algo não continuaria igual. Talvez até
continuassem inteiros, mas certamente não seriam os mesmos. Algo novo estava
começando e muitas coisas poderiam mudar.
Depois de sorrir sozinho, Marcelo
olhou mais uma vez no relógio e concluiu que algum contratempo poderia ter
acontecido.
Pegou o celular que estava sobre a
mesa e enviou uma mensagem para o namorado. Como não obteve resposta, achou
melhor ligar. Ligou a primeira vez... não foi atendido. A segunda foi igualmente
sem sucesso. Na terceira tentativa, o celular de Bruno já estava desligado. Sentindo-se
completamente rejeitado, Marcelo pagou a Coca-Cola e deixou o restaurante.
Não
acredito que você fez isso comigo, Bruno.
Ao entrar no carro, ele tirou uma
pequena caixa do bolso e examinou as duas alianças que estavam nela. Sentiu-se
patético. Seus planos tinham fracassado e, aparentemente, seu relacionamento
também.
Enquanto dirigia de volta pra casa,
ele imaginava se Bruno teria desistido de lutar por ele. Encheu-se de mágoa e
tristeza. Esperava bem mais do namorado e já não lhe restava nenhuma esperança
de reconciliação.
Quando chegou em seu apartamento,
Marcelo devolveu as alianças para o bolso da calça e caminhou em direção ao
quarto. Queria se jogar sobre a cama e apagar aquela noite definitivamente.
Mas ao abrir a porta do quarto, Marcelo
teve uma surpresa que mudou seus planos mais uma vez:
Usando um terno elegante, Bruno
estava deitado na cama, esperando-o com uma dúzia de rosas. As luzes estavam
apagadas e duas velas, sobre uma pequena mesa, iluminavam o local. A mesa
estava posta e uma garrafa de vinho sugeria um jantar romântico.
Marcelo não soube o que falar. Estava
atônito.
Bruno se levantou, entregou as flores
para o namorado e depois explicou:
– Eu só queria te fazer uma surpresa.
Marcelo já tinha esquecido toda a
raiva e ressentimento que tinha sentido. Não gostava muito de surpresas, mas estava
inteiramente feliz. Então segurou as rosas e abraçou o namorado por um longo
tempo.
Lembrou-se da caixinha em seu bolso
e, abrindo-a cuidadosamente, falou para Bruno o que havia planejado há alguns
dias:
– Ainda não posso te pedir em
casamento, mas quero oficializar o compromisso que sempre tivemos.
Diante das duas alianças, Bruno não
conseguia verbalizar toda a felicidade que estava sentindo. Eram as alianças
mais lindas que ele já tinha visto.
Mas apesar de tanta alegria, ele
sabia que era um passo importante. Será que seu namorado estava mesmo ciente de
todas as novas e mais intensas objeções que poderiam ter dali em diante?
– Você tem certeza? O que seus pais
vão dizer?
– O mesmo que disseram até hoje –
respondeu Marcelo com tranquilidade. – Muitos não vão entender. Mas já não
enfrentamos todos eles antes?
A família de Marcelo era religiosa e
conservadora. Assumir-se homossexual tinha sido uma decepção para seus pais e
grande parte da comunidade que fazia parte. Tornou-se alvo de críticas severas
e deixou de ser bem-vindo em muitos grupos que antes o recebiam de braços
abertos. Alguns poucos o aceitavam, reconhecendo que sua sexualidade não poderia
o impedir de viver a própria fé.
– Você tem razão – disse Bruno, orgulhoso
pela coragem do namorado.
Depois de trocarem as alianças, os
dois se beijaram lenta e demoradamente. Agora estavam oficialmente
comprometidos e prontos para continuar a história que tinham começado.
Sentaram-se à mesa, serviram-se do
vinho e brindaram ao relacionamento. Eles trocaram olhares ao constatar que as
duas taças continuavam intactas, sem nenhum arranhão. Se seus sentimentos estivessem
corretos, nada mais iria se quebrar a partir dali. As coisas velhas tinham
passado e muitas novidades ainda seriam descobertas. Fariam isso juntos.