quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Duas Taças

Sentado à mesa do seu restaurante favorito, Marcelo esperava pelo namorado e refletia sobre as mudanças imprevisíveis dos últimos dois anos. Eram lembranças nem sempre agradáveis, mas indiscutivelmente significativas, que transformaram tanta coisa de um jeito rápido e inesperado.
Olhou para uma mesa no canto do restaurante e pôde ver a si mesmo ali sentado, conversando com Bruno por longas horas, bem semelhante ao casal que agora se olhava de um jeito afetuoso. O rapaz beijou a mão da garota e ela sorriu de um jeito comovido, escancarando que estava apaixonada.
Sua relação com o namorado também era assim, cheia de cumplicidade e um amor sem medo de ser visto e conhecido. Embora o namoro estivesse numa fase difícil, ele acreditava que ambos não suportariam ficar distantes por muito tempo. Sim, estavam afastados há alguns dias, mas ainda eram namorados. Tratava-se apenas de uma crise momentânea. Se Bruno tinha o convidado para aquele restaurante, Marcelo imaginava que em breve estariam reconciliados.
Mas os minutos estavam passando e nenhum sinal de Bruno. Como ele costumava ser pontual, Marcelo achou justo relevar o seu primeiro atraso.
– O senhor já foi atendido? – perguntou-lhe um dos garçons.
– Não, obrigado. Estou aguardando outra pessoa.
O casal de namorados da outra mesa se levantou e os dois deixaram o restaurante de mãos dadas. Marcelo adorava esse gesto. Sempre observava com ternura pessoas que caminhavam com as mãos entrelaçadas. Era um gesto simples, sem malícia e muito significativo. Desejava que um dia todos os casais apaixonados tivessem liberdade para dar as mãos, fossem hétero ou homossexuais.
Como as pessoas podem se importar com o amor entre duas pessoas?, perguntou-se mais uma vez, sem chegar a uma resposta.
Há poucos meses ele tinha assumido publicamente o namoro com Bruno, disposto a lidar com as oposições e tratar com indiferença todo pessimismo e negatividade. O desejo de ser honesto e autêntico em seu relacionamento era mais forte que a raiva dos intolerantes.
– Não estamos fazendo isso porque precisamos nos justificar ou esperamos a aceitação das pessoas – escreveu Bruno, algumas semanas antes, na legenda de uma foto postada nas redes sociais. Ele ainda acrescentou: – Assim como todo casal apaixonado, só queremos celebrar nossa alegria e compartilhar essa felicidade com as pessoas que se importam com a gente.
Marcelo consultou o relógio novamente e fez cara feia. Trinta minutos era muito tempo. Decidiu esperar um pouco mais antes de ligar para o namorado.
Outro garçom se aproximou, entregou o cardápio nas mãos de Marcelo e perguntou se ele desejava pedir alguma bebida. Deduzindo que o garçom estivesse sugerindo gentilmente que ele não demorasse em fazer o pedido, Marcelo pediu uma Coca-Cola para ganhar um pouco mais de tempo. No minuto seguinte, o rapaz voltou com o refrigerante.
– Algo mais, senhor?
– Não, obrigado.
Depois do primeiro gole, ele olhou para taça em sua mão e automaticamente se lembrou do seu primeiro encontro com Bruno, dois anos atrás.
Os dois estavam na mesma festa de aniversário, mas ainda não se conheciam. Marcelo acompanhava uma amiga e Bruno era um dos convidados da aniversariante. Embora tivessem amigos em comum, aquela era a primeira vez que estavam juntos no mesmo lugar.
– Deixa eu te apresentar um amigo – falou Ingra, amiga de Marcelo.
– Amigo? – ele perguntou, mostrando-se tenso.
– Relaxa, Marcelo. Você não tá na igreja.
Puxando-o pelo braço, Ingra o levou até seu amigo. Marcelo ainda conseguia lembrar a camisa vermelha que Bruno estava usando e também a sua expressão um pouco desinteressada ao cumprimentá-lo. Não foi difícil perceber que o rapaz não estava muito a fim de papo, então preferiu se afastar e deixá-lo à vontade com os outros convidados. Ainda assim, vez ou outra, Marcelo o observava discretamente e notava que seu olhar era correspondido.
Quando chegou o momento dos parabéns, os pais da aniversariante propuseram um brinde à filha. Todos os amigos levantaram as taças e começaram a brindar entre si. Tudo estava normal, mas quando Marcelo se aproximou de Bruno para brindar com ele, as duas taças se partiram completamente.
Todos ficaram assustados e houve um silêncio absoluto. Mas então, quando perceberam que nada grave tinha acontecido, a aniversariante e convidados começaram a rir, emitindo sibilos maliciosos.
– Espero que isso não signifique trezentos anos de azar – disse Marcelo, tentando disfarçar que estava constrangido.
– Espero que não, mesmo! – retrucou Bruno e depois fez graça: – Já tenho uns cinquenta anos na fila.
Então os dois riram da situação, ainda assustados com a coincidência. Observando as duas taças aos pedaços no chão da sala, eles perceberam que algo não continuaria igual. Talvez até continuassem inteiros, mas certamente não seriam os mesmos. Algo novo estava começando e muitas coisas poderiam mudar.
Depois de sorrir sozinho, Marcelo olhou mais uma vez no relógio e concluiu que algum contratempo poderia ter acontecido.
Pegou o celular que estava sobre a mesa e enviou uma mensagem para o namorado. Como não obteve resposta, achou melhor ligar. Ligou a primeira vez... não foi atendido. A segunda foi igualmente sem sucesso. Na terceira tentativa, o celular de Bruno já estava desligado. Sentindo-se completamente rejeitado, Marcelo pagou a Coca-Cola e deixou o restaurante.
Não acredito que você fez isso comigo, Bruno.
Ao entrar no carro, ele tirou uma pequena caixa do bolso e examinou as duas alianças que estavam nela. Sentiu-se patético. Seus planos tinham fracassado e, aparentemente, seu relacionamento também.
Enquanto dirigia de volta pra casa, ele imaginava se Bruno teria desistido de lutar por ele. Encheu-se de mágoa e tristeza. Esperava bem mais do namorado e já não lhe restava nenhuma esperança de reconciliação.
Quando chegou em seu apartamento, Marcelo devolveu as alianças para o bolso da calça e caminhou em direção ao quarto. Queria se jogar sobre a cama e apagar aquela noite definitivamente.
Mas ao abrir a porta do quarto, Marcelo teve uma surpresa que mudou seus planos mais uma vez:
Usando um terno elegante, Bruno estava deitado na cama, esperando-o com uma dúzia de rosas. As luzes estavam apagadas e duas velas, sobre uma pequena mesa, iluminavam o local. A mesa estava posta e uma garrafa de vinho sugeria um jantar romântico.
Marcelo não soube o que falar. Estava atônito.
Bruno se levantou, entregou as flores para o namorado e depois explicou:
– Eu só queria te fazer uma surpresa.
Marcelo já tinha esquecido toda a raiva e ressentimento que tinha sentido. Não gostava muito de surpresas, mas estava inteiramente feliz. Então segurou as rosas e abraçou o namorado por um longo tempo.
Lembrou-se da caixinha em seu bolso e, abrindo-a cuidadosamente, falou para Bruno o que havia planejado há alguns dias:
– Ainda não posso te pedir em casamento, mas quero oficializar o compromisso que sempre tivemos.
Diante das duas alianças, Bruno não conseguia verbalizar toda a felicidade que estava sentindo. Eram as alianças mais lindas que ele já tinha visto.
Mas apesar de tanta alegria, ele sabia que era um passo importante. Será que seu namorado estava mesmo ciente de todas as novas e mais intensas objeções que poderiam ter dali em diante?
– Você tem certeza? O que seus pais vão dizer?
– O mesmo que disseram até hoje – respondeu Marcelo com tranquilidade. – Muitos não vão entender. Mas já não enfrentamos todos eles antes?
A família de Marcelo era religiosa e conservadora. Assumir-se homossexual tinha sido uma decepção para seus pais e grande parte da comunidade que fazia parte. Tornou-se alvo de críticas severas e deixou de ser bem-vindo em muitos grupos que antes o recebiam de braços abertos. Alguns poucos o aceitavam, reconhecendo que sua sexualidade não poderia o impedir de viver a própria fé.
– Você tem razão – disse Bruno, orgulhoso pela coragem do namorado.
Depois de trocarem as alianças, os dois se beijaram lenta e demoradamente. Agora estavam oficialmente comprometidos e prontos para continuar a história que tinham começado.
Sentaram-se à mesa, serviram-se do vinho e brindaram ao relacionamento. Eles trocaram olhares ao constatar que as duas taças continuavam intactas, sem nenhum arranhão. Se seus sentimentos estivessem corretos, nada mais iria se quebrar a partir dali. As coisas velhas tinham passado e muitas novidades ainda seriam descobertas. Fariam isso juntos.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Me faz feliz

    
– Você vai me fazer feliz?
Hoje é o dia do meu casamento, mas eu ainda não sei se serei feliz.
Eu sempre tive medo de não encontrar quem me proporcionasse felicidade. Mas acho que todas as pessoas temem a solidão. Ainda que alguns não consigam admitir, passamos parte da vida esperando pelo momento da paixão mútua, da alegria gratuita e do relacionamento que dura a vida inteira.
Confesso que ser feliz ao lado de alguém sempre me pareceu um desejo distante, uma quimera boa, mas tão difícil de se tornar real. Todo jovem gay experimenta diariamente a incerteza de viver o amor verdadeiro. Somos programados a não acreditar no afeto entre dois homens, pois alguém disse que homossexuais são promíscuos e incapazes de estabelecer um matrimônio honesto e verdadeiro. Temos nossas emoções censuradas e a libido castrada, como se inevitavelmente estivéssemos condenados à amargura e solidão.
Como é dolorosa a sensação de ter suas esperanças reduzidas pouco a pouco. O tempo passa, o espelho revela que já não somos tão jovens e a ansiedade vai penetrando cada célula do corpo, adoecendo-nos com o pessimismo e a descrença. As pessoas que cruzam nosso caminho deixam marcas e desparecem de repente. Cada dia é uma expectativa nova. Cada sorriso parece ser a chance de finalmente começar a ser feliz. Mas quando o sorriso se desfaz, questionamos se também somos capazes de descobrir a felicidade.
Hoje é o dia do meu casamento, Gustavo tem os olhos fitos em mim e eu ainda não sei se serei feliz.
Quando nos conhecemos, eu não imaginava que ele pudesse se interessar por mim. Sequer imaginei que Gustavo se tornaria meu amigo. Ele tem uma confiança que difere absolutamente da minha timidez. Ele é espontâneo e não se preocupa com a opinião dos outros. Gustavo sempre acreditou que poderia ser feliz ao lado de um homem; eu estou descobrindo isso com ele.
Desde o começo ele provou que o amor pode nascer em qualquer relacionamento. Existe intimidade além da cama; confidência além do sexo; companheirismo e maturidade além do gozo. Quando duas pessoas se amam, a relação não termina quando a noite acaba, mas permanece e está mais forte quando o dia amanhece.
Mas depois que encontramos alguém para amar, começamos a questionar se o amor vai durar pra sempre. Qualquer coisa se transforma em ameaça. Tudo vira motivo para dúvidas e insegurança. Para quem um dia desconheceu a felicidade a dois, é apavorante imaginar-se sozinho novamente. Se você já chorou em secreto, desejando que a felicidade chegasse de repente, sabe como pode ser doloroso ver o sonho se desfazer.
Hoje é dia do meu casamento, a cerimônia vai começar e eu ainda não sei se serei feliz. Eu só quero saber se vou ser feliz. Quem não quer saber?
Abraçando-me pela cintura e com uma expressão compreensiva, Gustavo me examinava de um jeito tranquilo e paciente. Enquanto eu estava preocupado com o futuro, ele parecia satisfeito em viver aquele momento ao meu lado.
Depois de esboçar um largo sorriso, Gustavo me beijou nos lábios e finalmente respondeu:
– Não sei, meu amor. Só sei que você me faz feliz.
Abracei-o demoradamente e depois mergulhei o rosto em seus cabelos cacheados. Que vontade eu tinha de nunca mais sair daquele lugar.
Agora, enquanto passamos pelo corredor do salão, eu só consigo pensar na felicidade dele. Como é bom saber que posso fazê-lo feliz.
As pessoas nos observam, parabenizam e alguns estão emocionados. Estamos declarando o desejo de ficarmos juntos em todas as circunstâncias. Talvez isso seja suficiente para acreditar na minha felicidade.
Já não importa o que todas as pessoas me disseram. Se acreditam que podemos ser felizes, se aceitam a nossa união, se concordam com o amor entre dois homens – nada disso faz diferença. O que existe entre a gente não pode ser compreendido por mais ninguém. Eu sei que temos o suficiente para seguir em frente.
Diante de todos, Gustavo segura minha mão e me promete ser fiel.  
Enquanto ele coloca a aliança em meu dedo, eu sinto que tenho tudo pra ser muito feliz.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

O próximo passo

Amanda estava sentada no alto de um edifício, decidindo o que fazer com a própria vida.
Havia anos que ela desejava ter coragem para por fim aos sentimentos de aflição e tristeza. Tinha tentado pelo menos cinco vezes, mas fracassara por medo de sofrer ainda mais. E se eu não morrer?, perguntava-se antes de dar o próximo passo. A chance de permanecer viva e debilitada, tornando-se um estorvo ainda maior, deixava-a apavorada.  
Mas dessa vez, sobre um prédio de vinte e seis andares, Amanda sabia que o impacto do seu corpo contra o chão seria fatal. Ela não teria chance alguma de sobreviver. Não precisaria de nenhum precedimento cirúrgico, não ficaria em coma e não acordaria com sequelas irreversíveis. Se pulasse do edifício, o fim seria absoluto e o descanso imediato.
Mas o vento frio lá em cima a fazia se sentir viva. Os pelos de Amanda estavam eriçados e uma onda de energia percorria todo seu corpo, fazendo-a estremecer. Ela envolveu o colo com os próprios braços, sentindo as mãos aquecerem os ombros e depois os dedos tocarem a pele do rosto. Ainda estou viva, disse em pensamento, considerando a possibilidade de seguir em frente e dar a si mesma uma nova chance.
Não sei se consigo...
Amanda olhou para os pulsos e examinou as cicatrizes vermelhas e finas, que evidenciavam uma profunda e vergonhosa fragilidade. Achou-se desprezível. Fraca. Indigna. Talvez já não estivesse tão viva assim. Então por que morrer em pequenas doses, se somente depois da completa morte ela estaria livre?
Não tem outro jeito, Amanda.
Quando olhou para baixo mais uma vez, sentiu-se puxada pela força gravitacional e praticamente deixou-se ser atraída pela rua, muitos metros abaixo. Então agarrou-se à beirada do parapeito e foi tomada por um enjoo que a fez virar o corpo para trás, jogando-se de costas sobre o terraço. Arrastando-se no chão, ela se afastou da margem e inclinou o corpo para vomitar. Como não comia a muitas horas, apenas um líquido esbranquiçado jorrou de sua boca, sujando o seu queixo e parte do vestido.
Por que você não consegue fazer isso?
Tomada por uma fusão de desespero e ódio de si mesma, Amanda colocou o rosto sobre o chão e lágrimas começaram a cair de seus olhos. Em pouco tempo o choro se transformou em pranto, acompanhado de gritos esporádicos. Ela não suportava mais viver dentro de si mesma. Estava cansada de todas as ausências.
Será que nunca mais poderia se sentir completa?
Ao seu lado, o celular começou a tocar dentro da pequena bolsa, que estava toda suja de areia. Sem tirar o rosto do chão, Amanda esticou o braço e pegou o aparelho. Esperou que o choro estivesse mais controlado e em seguida atendeu a ligação.
Oi, filha disse alguém com uma voz serena Onde você está?
Oi, mãe. Estou no trabalho Amanda mentiu.
Você não quer almoçar aqui em casa?
Não sei se posso, mãe.
Tenta. Estou te esperando.
Quando desligou o telefone, Amanda sentiu uma agonia maior do que antes. Como poderia abandonar a mãe? Seria covardia impor sobre ela tamanha tristeza. Sua mãe sofreria. Sua mãe sofreria muito. Mas valeria a pena insistir em viver? Não seria a vida uma penitência maior que a dor de qualquer outra pessoa? Percebeu-se incapaz de mudar o destino.
Por que as coisas não foram diferentes?
Ao fechar os olhos, todas as imagens retornaram à sua mente, arrebatando-a de um jeito devastador: os olhos selvagens do homem sobre ela, a força dos seus braços segurando-a pelos quadris e a saliva dele escorrendo pelos seus lábios. Ao ser penetrada com brutalidade, Amanda sentia como se tivesse a genitália estraçalhada e a dor alucinante continuava presente e muito real. Seus mamilos ainda ardiam e pareciam exibir as mesmas mordidas daquela noite. Mal conseguia olhar pra si mesma. Tudo nela tinha as marcas e o cheiro dele, assim como a textura do sêmen quente sobre o seu rosto, misturado com as suas lágrimas.
Sentia-se suja e violentada mais uma vez, como se aquele homem estivesse ali novamente, agarrado ao seu corpo, destruindo-a de novo. Ele tinha roubado não somente a pureza e as fantasias de garota. Ele levou seu respeito próprio, a capacidade de encontrar felicidade e o interesse pela vida.
Não há nada em mim. Não me restou nada.
Então conseguiu ouvir o choro do bebê que não nasceu. Imaginou o rastro de sangue deixado no lençol da cama, no chão do quarto e no tapete da sala. Ela jamais seria mãe. Nunca veria a face de sua criança. Seu útero, assim como todo o resto de si mesma, estava aos pedaços. Inútil. Sem vida.
Ele me tirou tudo. Meu Deus, ele me tirou tudo!
Encontrava-se  vazia, sem perspectiva, sem sonhos.
Ela ficou de pé novamente e voltou a beirada do edifício. Colocou os dois joelhos sobre o parapeito e desviou o olhar do precipício. Se olhasse para baixo não conseguiria pular.
Quando percebeu que ainda segurava o celular, Amanda pensou na mãe.
Me perdoe, por favor.
Seus olhos se encheram de lágrimas e todo seu corpo começou a tremer.
Então respirou fundo, olhou pra cima e desejou ser feliz em outro lugar.
Então vai ser assim?, ouviu sua consciência perguntar.
Amanda tirou os joelhos do chão e se levantou. Tem que ser assim!
Mais uma vez, restava-lhe apenas um passo.
Antes de seguir em frente, ela ouviu o toque do seu celular.
Não posso atender!
Ela precisava pular agora. Se esperasse mais um segundo, talvez o ímpeto desaparecesse, fazendo-a recuar. Não, não posso voltar atrás. Sentia-se inundada por uma vontade desesperada de chegar ao fim de tudo. Não queria morrer. Só queria ser feliz de novo. Sofrer cansa. E ela estava exausta. Mas... E se eu puder viver?
O celular ainda tocava.
Se atendesse aquela ligação, certamente perderia a coragem. Mas por que não tentar mais um pouco?
Uma ponta de esperança surgiu, fazendo seu coração acelerar.
Eu não quero morrer!
Ela tocou na tela do celular e o levou em direção ao ouvido.
Alô. Amanda?
Oi, mãe ela disse com os lábios trêmulos.
Como era bom ouvir a voz dela. Talvez não estivesse sozinha.
Imaginou-se abraçada e beijada pela única pessoa que ainda estava ao lado dela.  Sua mãe sabia muito pouco da sua dor, mas certamente esperava o momento de acolhê-la. Desejou imensamente está com ela novamente. Queria sentir o calor do seu colo, o toque das suas mãos e o aconchego firme dos seus braços. Queria se sentir filha, criança mais uma vez. Talvez ainda houvesse um pouco de pureza em seu coração. Quem sabe, finalmente, pudesse ser livre como antes.
Sim, mãe, eu quero almoçar com você.
Nem tudo tinha sido destruído. Ainda lhe restava um pouco de amor.
Amanda deu um passo pra trás, afastando-se da beirada.
Espere por mim pediu chorando e depois avisou: Estou indo pra casa.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Quando tudo isso acabar


Ele deu um passo para trás e empurrou minhas mãos com os braços.
– O que foi isso? – perguntou em tom agressivo e com olhos assustados.
– Eu não sei.
– Você me beijou – ele vociferou. – Por que você me beijou?
Porque eu não pensava em outra coisa, respondi mentalmente.
Diego tinha no olhar uma fusão de sentimentos inquietos e desorientados, como se tentasse colocar cada coisa em seu lugar, mas não soubesse por onde começar.
– Por que você me beijou, Caio?
– Porque eu gosto de você – respondi, jogando-me sobre o sofá.
– Você gosta de mim?
– Mais do que isso. Eu amo você.
Era horrível admitir que estava apaixonado por ele. Sentia-me estúpido. De todos os momentos possíveis, eu tinha escolhido o pior. Minhas chances tinham se esgotado. Eu sabia que não era justo esperar outra coisa senão a sua rejeição.
– Você não pode fazer isso comigo...
Diego colocou as mãos sobre a face e começou a andar pela sala.
– Não precisa fazer nada. Esqueça isso. Esquece esse beijo.
Então seus olhos aflitos e confusos fitaram os meus, deixando transparecer também um pouco de impaciência e desprezo. Diego detestava ser subestimado, como se precisasse ser convencido a respeito dos próprios sentimentos e decisões. Ninguém mais do que ele sabia que era preciso esquecer.
– Eu não tenho outra escolha, Caio.
Ele pegou a mochila, colocou-a sobre as costas e passou pela porta, deixando-me sozinho.
Ao vê-lo se afastar fui invadido por um medo sem fim. Eu não sabia como as coisas funcionavam sem ele. Era muito improvável imaginá-lo ausente das minhas horas, dos meus dias e de cada semana que eu pudesse viver. Diego fazia parte da minha rotina, dos momentos mais triviais e das lembranças mais banais. Tudo o que havia de mais simplório e ordinário me fazia pensar nele. Por isso eu estava apavorado. Se ele fosse uma parte extraordinária da minha existência, talvez seria mais fácil transformá-lo apenas em memória.
Levantei-me do sofá e corri para não deixá-lo partir daquela maneira.
Diego estava sentado do lado de fora da casa, com os cotovelos sobre os joelhos e o rosto enterrado nas mãos. Com a sola dos tênis, ele batia no piso aceleradamente, revelando sua angústia.
Aproximei-me dele, coloquei os joelhos no chão e pousei a mão sobre seu ombro.
– Não precisa ficar assim. Nada vai mudar. A gente vai se amar sempre.
Minhas palavras soaram tão artificiais e presunçosas que eu achei melhor ficar calado e desistir de tentar consertar as coisas. Nada que eu dissesse tornaria aquele momento menos doloroso.
Ele virou o rosto, encarou-me de um jeito severo, mas falou com brandura:
– Eu gostei de você a vida toda, Caio. Eu sempre amei você. Mas agora...
– Agora você está indo embora, mas vai voltar.
– E se eu não voltar?
Examinei seu rosto e, mais uma vez, não consegui compreender como seria possível viver sem ele. Por que eu demorei tanto pra perceber que quero você pra sempre?
– Se você não voltar...
Então baixei a cabeça e fechei os olhos. Eu já não poderia fugir da realidade. Talvez eu estivesse com ele pela última vez. Uma lágrima escorreu pelo meu rosto.
Diego ficou de joelhos e me envolveu com seus braços, colocando a cabeça sobre o meu ombro. Eu também o abracei com força, passando minhas mãos pelas suas costas e pescoço. Senti o perfume que estava nele e desejei jamais esquecer o seu cheiro.
– Eu estou com medo – ele falou desesperado.
Eu também estava, mas procurei as palavras certas e falei com segurança:
– Vamos ficar juntos, quando tudo isso acabar.
Seu hálito aqueceu o meu pescoço e eu senti um desejo pulsante de beija-lo.
Mas escolhi abraça-lo ainda mais forte, como se pudesse guarda-lo dentro de mim.
– Eu amo muito você.
Diego colocou as mãos em meu rosto, acariciando minha barba. Sorrindo pela primeira vez naquele dia, ele sussurrou como se estivesse confessando:
– Eu sempre quis ouvir isso.
– Então eu repito: te amo, te amo, te amo!
Ele riu baixinho, mas depois sua expressão ficou séria.
– Talvez eu volte diferente.
– Não importa. Vou te amar ainda mais.
Abraçando-me mais forte, Diego chorou tudo o que tinha contido até então.
Minhas mãos afagaram seus cabelos e eu me esforcei para não fraquejar.
No minuto seguinte, ouvimos o som de uma buzina. Agora estava na hora.
Ficamos de pé e mais uma vez passei os braços ao redor dele.
– Eu te amo – ele sussurrou em meu ouvido.
Depois começou a descer as escadas, virando o rosto para me olhar até chegar no último degrau.
– Espera por mim, por favor – então pediu, controlando o choro.
– Eu já estou esperando você.
Quando ele entrou no carro, olhamo-nos mais uma vez e Diego sorriu.
Depois de vê-lo partir, permiti-me chorar de verdade.
Por favor, espera por mim, eu também pedi.