Ele deu um passo para trás e empurrou minhas mãos com os braços.
– O que foi isso? – perguntou em tom agressivo e com olhos assustados.
– Eu não sei.
– Você me beijou – ele vociferou. – Por que você me beijou?
Porque eu não pensava em outra coisa, respondi mentalmente.
Diego tinha no olhar uma fusão de sentimentos inquietos e desorientados,
como se tentasse colocar cada coisa em seu lugar, mas não soubesse por onde
começar.
– Por que você me beijou, Caio?
– Porque eu gosto de você – respondi,
jogando-me sobre o sofá.
– Você gosta de mim?
– Mais do que isso. Eu amo você.
Era horrível admitir que estava
apaixonado por ele. Sentia-me estúpido. De todos os momentos possíveis, eu
tinha escolhido o pior. Minhas chances tinham se esgotado. Eu sabia que não era
justo esperar outra coisa senão a sua rejeição.
– Você não pode fazer isso comigo...
Diego colocou as mãos sobre a face e
começou a andar pela sala.
– Não precisa fazer nada. Esqueça
isso. Esquece esse beijo.
Então seus olhos aflitos e confusos
fitaram os meus, deixando transparecer também um pouco de impaciência e
desprezo. Diego detestava ser subestimado, como se precisasse ser convencido a
respeito dos próprios sentimentos e decisões. Ninguém mais do que ele sabia que
era preciso esquecer.
– Eu não tenho outra escolha, Caio.
Ele pegou a mochila, colocou-a sobre
as costas e passou pela porta, deixando-me sozinho.
Ao vê-lo se afastar fui invadido por
um medo sem fim. Eu não sabia como as coisas funcionavam sem ele. Era muito improvável
imaginá-lo ausente das minhas horas, dos meus dias e de cada semana que eu
pudesse viver. Diego fazia parte da minha rotina, dos momentos mais triviais e
das lembranças mais banais. Tudo o que havia de mais simplório e ordinário me
fazia pensar nele. Por isso eu estava apavorado. Se ele fosse uma parte
extraordinária da minha existência, talvez seria mais fácil transformá-lo
apenas em memória.
Levantei-me do sofá e corri para não
deixá-lo partir daquela maneira.
Diego estava sentado do lado de fora
da casa, com os cotovelos sobre os joelhos e o rosto enterrado nas mãos. Com a
sola dos tênis, ele batia no piso aceleradamente, revelando sua angústia.
Aproximei-me dele, coloquei os
joelhos no chão e pousei a mão sobre seu ombro.
– Não precisa ficar assim. Nada vai
mudar. A gente vai se amar sempre.
Minhas palavras soaram tão artificiais
e presunçosas que eu achei melhor ficar calado e desistir de tentar consertar
as coisas. Nada que eu dissesse tornaria aquele momento menos doloroso.
Ele virou o rosto, encarou-me de um
jeito severo, mas falou com brandura:
– Eu gostei de você a vida toda,
Caio. Eu sempre amei você. Mas agora...
– Agora você está indo embora, mas
vai voltar.
– E se eu não voltar?
Examinei seu rosto e, mais uma vez,
não consegui compreender como seria possível viver sem ele. Por que eu
demorei tanto pra perceber que quero você pra sempre?
– Se você não voltar...
Então baixei a cabeça e fechei os
olhos. Eu já não poderia fugir da realidade. Talvez eu estivesse com ele pela
última vez. Uma lágrima escorreu pelo meu rosto.
Diego ficou de joelhos e me envolveu
com seus braços, colocando a cabeça sobre o meu ombro. Eu também o abracei com
força, passando minhas mãos pelas suas costas e pescoço. Senti o perfume que
estava nele e desejei jamais esquecer o seu cheiro.
– Eu estou com medo – ele falou
desesperado.
Eu também estava, mas procurei as
palavras certas e falei com segurança:
– Vamos ficar juntos, quando tudo
isso acabar.
Seu hálito aqueceu o meu pescoço e eu
senti um desejo pulsante de beija-lo.
Mas escolhi abraça-lo ainda mais
forte, como se pudesse guarda-lo dentro de mim.
– Eu amo muito você.
Diego colocou as mãos em meu rosto,
acariciando minha barba. Sorrindo pela primeira vez naquele dia, ele sussurrou
como se estivesse confessando:
– Eu sempre quis ouvir isso.
– Então eu repito: te amo, te amo, te
amo!
Ele riu baixinho, mas depois sua
expressão ficou séria.
– Talvez eu volte diferente.
– Não importa. Vou te amar ainda
mais.
Abraçando-me mais forte, Diego chorou
tudo o que tinha contido até então.
Minhas mãos afagaram seus cabelos e
eu me esforcei para não fraquejar.
No minuto seguinte, ouvimos o som de
uma buzina. Agora estava na hora.
Ficamos de pé e mais uma vez passei
os braços ao redor dele.
– Eu te amo – ele sussurrou em meu
ouvido.
Depois começou a descer as escadas,
virando o rosto para me olhar até chegar no último degrau.
– Espera por mim, por favor – então
pediu, controlando o choro.
– Eu já estou esperando você.
Quando ele entrou no carro,
olhamo-nos mais uma vez e Diego sorriu.
Depois de vê-lo partir, permiti-me
chorar de verdade.
Por favor, espera por mim, eu também pedi.
Por favor, espera por mim, eu também pedi.
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