sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Quando tudo isso acabar


Ele deu um passo para trás e empurrou minhas mãos com os braços.
– O que foi isso? – perguntou em tom agressivo e com olhos assustados.
– Eu não sei.
– Você me beijou – ele vociferou. – Por que você me beijou?
Porque eu não pensava em outra coisa, respondi mentalmente.
Diego tinha no olhar uma fusão de sentimentos inquietos e desorientados, como se tentasse colocar cada coisa em seu lugar, mas não soubesse por onde começar.
– Por que você me beijou, Caio?
– Porque eu gosto de você – respondi, jogando-me sobre o sofá.
– Você gosta de mim?
– Mais do que isso. Eu amo você.
Era horrível admitir que estava apaixonado por ele. Sentia-me estúpido. De todos os momentos possíveis, eu tinha escolhido o pior. Minhas chances tinham se esgotado. Eu sabia que não era justo esperar outra coisa senão a sua rejeição.
– Você não pode fazer isso comigo...
Diego colocou as mãos sobre a face e começou a andar pela sala.
– Não precisa fazer nada. Esqueça isso. Esquece esse beijo.
Então seus olhos aflitos e confusos fitaram os meus, deixando transparecer também um pouco de impaciência e desprezo. Diego detestava ser subestimado, como se precisasse ser convencido a respeito dos próprios sentimentos e decisões. Ninguém mais do que ele sabia que era preciso esquecer.
– Eu não tenho outra escolha, Caio.
Ele pegou a mochila, colocou-a sobre as costas e passou pela porta, deixando-me sozinho.
Ao vê-lo se afastar fui invadido por um medo sem fim. Eu não sabia como as coisas funcionavam sem ele. Era muito improvável imaginá-lo ausente das minhas horas, dos meus dias e de cada semana que eu pudesse viver. Diego fazia parte da minha rotina, dos momentos mais triviais e das lembranças mais banais. Tudo o que havia de mais simplório e ordinário me fazia pensar nele. Por isso eu estava apavorado. Se ele fosse uma parte extraordinária da minha existência, talvez seria mais fácil transformá-lo apenas em memória.
Levantei-me do sofá e corri para não deixá-lo partir daquela maneira.
Diego estava sentado do lado de fora da casa, com os cotovelos sobre os joelhos e o rosto enterrado nas mãos. Com a sola dos tênis, ele batia no piso aceleradamente, revelando sua angústia.
Aproximei-me dele, coloquei os joelhos no chão e pousei a mão sobre seu ombro.
– Não precisa ficar assim. Nada vai mudar. A gente vai se amar sempre.
Minhas palavras soaram tão artificiais e presunçosas que eu achei melhor ficar calado e desistir de tentar consertar as coisas. Nada que eu dissesse tornaria aquele momento menos doloroso.
Ele virou o rosto, encarou-me de um jeito severo, mas falou com brandura:
– Eu gostei de você a vida toda, Caio. Eu sempre amei você. Mas agora...
– Agora você está indo embora, mas vai voltar.
– E se eu não voltar?
Examinei seu rosto e, mais uma vez, não consegui compreender como seria possível viver sem ele. Por que eu demorei tanto pra perceber que quero você pra sempre?
– Se você não voltar...
Então baixei a cabeça e fechei os olhos. Eu já não poderia fugir da realidade. Talvez eu estivesse com ele pela última vez. Uma lágrima escorreu pelo meu rosto.
Diego ficou de joelhos e me envolveu com seus braços, colocando a cabeça sobre o meu ombro. Eu também o abracei com força, passando minhas mãos pelas suas costas e pescoço. Senti o perfume que estava nele e desejei jamais esquecer o seu cheiro.
– Eu estou com medo – ele falou desesperado.
Eu também estava, mas procurei as palavras certas e falei com segurança:
– Vamos ficar juntos, quando tudo isso acabar.
Seu hálito aqueceu o meu pescoço e eu senti um desejo pulsante de beija-lo.
Mas escolhi abraça-lo ainda mais forte, como se pudesse guarda-lo dentro de mim.
– Eu amo muito você.
Diego colocou as mãos em meu rosto, acariciando minha barba. Sorrindo pela primeira vez naquele dia, ele sussurrou como se estivesse confessando:
– Eu sempre quis ouvir isso.
– Então eu repito: te amo, te amo, te amo!
Ele riu baixinho, mas depois sua expressão ficou séria.
– Talvez eu volte diferente.
– Não importa. Vou te amar ainda mais.
Abraçando-me mais forte, Diego chorou tudo o que tinha contido até então.
Minhas mãos afagaram seus cabelos e eu me esforcei para não fraquejar.
No minuto seguinte, ouvimos o som de uma buzina. Agora estava na hora.
Ficamos de pé e mais uma vez passei os braços ao redor dele.
– Eu te amo – ele sussurrou em meu ouvido.
Depois começou a descer as escadas, virando o rosto para me olhar até chegar no último degrau.
– Espera por mim, por favor – então pediu, controlando o choro.
– Eu já estou esperando você.
Quando ele entrou no carro, olhamo-nos mais uma vez e Diego sorriu.
Depois de vê-lo partir, permiti-me chorar de verdade.
Por favor, espera por mim, eu também pedi.

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