quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Duas Taças

Sentado à mesa do seu restaurante favorito, Marcelo esperava pelo namorado e refletia sobre as mudanças imprevisíveis dos últimos dois anos. Eram lembranças nem sempre agradáveis, mas indiscutivelmente significativas, que transformaram tanta coisa de um jeito rápido e inesperado.
Olhou para uma mesa no canto do restaurante e pôde ver a si mesmo ali sentado, conversando com Bruno por longas horas, bem semelhante ao casal que agora se olhava de um jeito afetuoso. O rapaz beijou a mão da garota e ela sorriu de um jeito comovido, escancarando que estava apaixonada.
Sua relação com o namorado também era assim, cheia de cumplicidade e um amor sem medo de ser visto e conhecido. Embora o namoro estivesse numa fase difícil, ele acreditava que ambos não suportariam ficar distantes por muito tempo. Sim, estavam afastados há alguns dias, mas ainda eram namorados. Tratava-se apenas de uma crise momentânea. Se Bruno tinha o convidado para aquele restaurante, Marcelo imaginava que em breve estariam reconciliados.
Mas os minutos estavam passando e nenhum sinal de Bruno. Como ele costumava ser pontual, Marcelo achou justo relevar o seu primeiro atraso.
– O senhor já foi atendido? – perguntou-lhe um dos garçons.
– Não, obrigado. Estou aguardando outra pessoa.
O casal de namorados da outra mesa se levantou e os dois deixaram o restaurante de mãos dadas. Marcelo adorava esse gesto. Sempre observava com ternura pessoas que caminhavam com as mãos entrelaçadas. Era um gesto simples, sem malícia e muito significativo. Desejava que um dia todos os casais apaixonados tivessem liberdade para dar as mãos, fossem hétero ou homossexuais.
Como as pessoas podem se importar com o amor entre duas pessoas?, perguntou-se mais uma vez, sem chegar a uma resposta.
Há poucos meses ele tinha assumido publicamente o namoro com Bruno, disposto a lidar com as oposições e tratar com indiferença todo pessimismo e negatividade. O desejo de ser honesto e autêntico em seu relacionamento era mais forte que a raiva dos intolerantes.
– Não estamos fazendo isso porque precisamos nos justificar ou esperamos a aceitação das pessoas – escreveu Bruno, algumas semanas antes, na legenda de uma foto postada nas redes sociais. Ele ainda acrescentou: – Assim como todo casal apaixonado, só queremos celebrar nossa alegria e compartilhar essa felicidade com as pessoas que se importam com a gente.
Marcelo consultou o relógio novamente e fez cara feia. Trinta minutos era muito tempo. Decidiu esperar um pouco mais antes de ligar para o namorado.
Outro garçom se aproximou, entregou o cardápio nas mãos de Marcelo e perguntou se ele desejava pedir alguma bebida. Deduzindo que o garçom estivesse sugerindo gentilmente que ele não demorasse em fazer o pedido, Marcelo pediu uma Coca-Cola para ganhar um pouco mais de tempo. No minuto seguinte, o rapaz voltou com o refrigerante.
– Algo mais, senhor?
– Não, obrigado.
Depois do primeiro gole, ele olhou para taça em sua mão e automaticamente se lembrou do seu primeiro encontro com Bruno, dois anos atrás.
Os dois estavam na mesma festa de aniversário, mas ainda não se conheciam. Marcelo acompanhava uma amiga e Bruno era um dos convidados da aniversariante. Embora tivessem amigos em comum, aquela era a primeira vez que estavam juntos no mesmo lugar.
– Deixa eu te apresentar um amigo – falou Ingra, amiga de Marcelo.
– Amigo? – ele perguntou, mostrando-se tenso.
– Relaxa, Marcelo. Você não tá na igreja.
Puxando-o pelo braço, Ingra o levou até seu amigo. Marcelo ainda conseguia lembrar a camisa vermelha que Bruno estava usando e também a sua expressão um pouco desinteressada ao cumprimentá-lo. Não foi difícil perceber que o rapaz não estava muito a fim de papo, então preferiu se afastar e deixá-lo à vontade com os outros convidados. Ainda assim, vez ou outra, Marcelo o observava discretamente e notava que seu olhar era correspondido.
Quando chegou o momento dos parabéns, os pais da aniversariante propuseram um brinde à filha. Todos os amigos levantaram as taças e começaram a brindar entre si. Tudo estava normal, mas quando Marcelo se aproximou de Bruno para brindar com ele, as duas taças se partiram completamente.
Todos ficaram assustados e houve um silêncio absoluto. Mas então, quando perceberam que nada grave tinha acontecido, a aniversariante e convidados começaram a rir, emitindo sibilos maliciosos.
– Espero que isso não signifique trezentos anos de azar – disse Marcelo, tentando disfarçar que estava constrangido.
– Espero que não, mesmo! – retrucou Bruno e depois fez graça: – Já tenho uns cinquenta anos na fila.
Então os dois riram da situação, ainda assustados com a coincidência. Observando as duas taças aos pedaços no chão da sala, eles perceberam que algo não continuaria igual. Talvez até continuassem inteiros, mas certamente não seriam os mesmos. Algo novo estava começando e muitas coisas poderiam mudar.
Depois de sorrir sozinho, Marcelo olhou mais uma vez no relógio e concluiu que algum contratempo poderia ter acontecido.
Pegou o celular que estava sobre a mesa e enviou uma mensagem para o namorado. Como não obteve resposta, achou melhor ligar. Ligou a primeira vez... não foi atendido. A segunda foi igualmente sem sucesso. Na terceira tentativa, o celular de Bruno já estava desligado. Sentindo-se completamente rejeitado, Marcelo pagou a Coca-Cola e deixou o restaurante.
Não acredito que você fez isso comigo, Bruno.
Ao entrar no carro, ele tirou uma pequena caixa do bolso e examinou as duas alianças que estavam nela. Sentiu-se patético. Seus planos tinham fracassado e, aparentemente, seu relacionamento também.
Enquanto dirigia de volta pra casa, ele imaginava se Bruno teria desistido de lutar por ele. Encheu-se de mágoa e tristeza. Esperava bem mais do namorado e já não lhe restava nenhuma esperança de reconciliação.
Quando chegou em seu apartamento, Marcelo devolveu as alianças para o bolso da calça e caminhou em direção ao quarto. Queria se jogar sobre a cama e apagar aquela noite definitivamente.
Mas ao abrir a porta do quarto, Marcelo teve uma surpresa que mudou seus planos mais uma vez:
Usando um terno elegante, Bruno estava deitado na cama, esperando-o com uma dúzia de rosas. As luzes estavam apagadas e duas velas, sobre uma pequena mesa, iluminavam o local. A mesa estava posta e uma garrafa de vinho sugeria um jantar romântico.
Marcelo não soube o que falar. Estava atônito.
Bruno se levantou, entregou as flores para o namorado e depois explicou:
– Eu só queria te fazer uma surpresa.
Marcelo já tinha esquecido toda a raiva e ressentimento que tinha sentido. Não gostava muito de surpresas, mas estava inteiramente feliz. Então segurou as rosas e abraçou o namorado por um longo tempo.
Lembrou-se da caixinha em seu bolso e, abrindo-a cuidadosamente, falou para Bruno o que havia planejado há alguns dias:
– Ainda não posso te pedir em casamento, mas quero oficializar o compromisso que sempre tivemos.
Diante das duas alianças, Bruno não conseguia verbalizar toda a felicidade que estava sentindo. Eram as alianças mais lindas que ele já tinha visto.
Mas apesar de tanta alegria, ele sabia que era um passo importante. Será que seu namorado estava mesmo ciente de todas as novas e mais intensas objeções que poderiam ter dali em diante?
– Você tem certeza? O que seus pais vão dizer?
– O mesmo que disseram até hoje – respondeu Marcelo com tranquilidade. – Muitos não vão entender. Mas já não enfrentamos todos eles antes?
A família de Marcelo era religiosa e conservadora. Assumir-se homossexual tinha sido uma decepção para seus pais e grande parte da comunidade que fazia parte. Tornou-se alvo de críticas severas e deixou de ser bem-vindo em muitos grupos que antes o recebiam de braços abertos. Alguns poucos o aceitavam, reconhecendo que sua sexualidade não poderia o impedir de viver a própria fé.
– Você tem razão – disse Bruno, orgulhoso pela coragem do namorado.
Depois de trocarem as alianças, os dois se beijaram lenta e demoradamente. Agora estavam oficialmente comprometidos e prontos para continuar a história que tinham começado.
Sentaram-se à mesa, serviram-se do vinho e brindaram ao relacionamento. Eles trocaram olhares ao constatar que as duas taças continuavam intactas, sem nenhum arranhão. Se seus sentimentos estivessem corretos, nada mais iria se quebrar a partir dali. As coisas velhas tinham passado e muitas novidades ainda seriam descobertas. Fariam isso juntos.

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