quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

O próximo passo

Amanda estava sentada no alto de um edifício, decidindo o que fazer com a própria vida.
Havia anos que ela desejava ter coragem para por fim aos sentimentos de aflição e tristeza. Tinha tentado pelo menos cinco vezes, mas fracassara por medo de sofrer ainda mais. E se eu não morrer?, perguntava-se antes de dar o próximo passo. A chance de permanecer viva e debilitada, tornando-se um estorvo ainda maior, deixava-a apavorada.  
Mas dessa vez, sobre um prédio de vinte e seis andares, Amanda sabia que o impacto do seu corpo contra o chão seria fatal. Ela não teria chance alguma de sobreviver. Não precisaria de nenhum precedimento cirúrgico, não ficaria em coma e não acordaria com sequelas irreversíveis. Se pulasse do edifício, o fim seria absoluto e o descanso imediato.
Mas o vento frio lá em cima a fazia se sentir viva. Os pelos de Amanda estavam eriçados e uma onda de energia percorria todo seu corpo, fazendo-a estremecer. Ela envolveu o colo com os próprios braços, sentindo as mãos aquecerem os ombros e depois os dedos tocarem a pele do rosto. Ainda estou viva, disse em pensamento, considerando a possibilidade de seguir em frente e dar a si mesma uma nova chance.
Não sei se consigo...
Amanda olhou para os pulsos e examinou as cicatrizes vermelhas e finas, que evidenciavam uma profunda e vergonhosa fragilidade. Achou-se desprezível. Fraca. Indigna. Talvez já não estivesse tão viva assim. Então por que morrer em pequenas doses, se somente depois da completa morte ela estaria livre?
Não tem outro jeito, Amanda.
Quando olhou para baixo mais uma vez, sentiu-se puxada pela força gravitacional e praticamente deixou-se ser atraída pela rua, muitos metros abaixo. Então agarrou-se à beirada do parapeito e foi tomada por um enjoo que a fez virar o corpo para trás, jogando-se de costas sobre o terraço. Arrastando-se no chão, ela se afastou da margem e inclinou o corpo para vomitar. Como não comia a muitas horas, apenas um líquido esbranquiçado jorrou de sua boca, sujando o seu queixo e parte do vestido.
Por que você não consegue fazer isso?
Tomada por uma fusão de desespero e ódio de si mesma, Amanda colocou o rosto sobre o chão e lágrimas começaram a cair de seus olhos. Em pouco tempo o choro se transformou em pranto, acompanhado de gritos esporádicos. Ela não suportava mais viver dentro de si mesma. Estava cansada de todas as ausências.
Será que nunca mais poderia se sentir completa?
Ao seu lado, o celular começou a tocar dentro da pequena bolsa, que estava toda suja de areia. Sem tirar o rosto do chão, Amanda esticou o braço e pegou o aparelho. Esperou que o choro estivesse mais controlado e em seguida atendeu a ligação.
Oi, filha disse alguém com uma voz serena Onde você está?
Oi, mãe. Estou no trabalho Amanda mentiu.
Você não quer almoçar aqui em casa?
Não sei se posso, mãe.
Tenta. Estou te esperando.
Quando desligou o telefone, Amanda sentiu uma agonia maior do que antes. Como poderia abandonar a mãe? Seria covardia impor sobre ela tamanha tristeza. Sua mãe sofreria. Sua mãe sofreria muito. Mas valeria a pena insistir em viver? Não seria a vida uma penitência maior que a dor de qualquer outra pessoa? Percebeu-se incapaz de mudar o destino.
Por que as coisas não foram diferentes?
Ao fechar os olhos, todas as imagens retornaram à sua mente, arrebatando-a de um jeito devastador: os olhos selvagens do homem sobre ela, a força dos seus braços segurando-a pelos quadris e a saliva dele escorrendo pelos seus lábios. Ao ser penetrada com brutalidade, Amanda sentia como se tivesse a genitália estraçalhada e a dor alucinante continuava presente e muito real. Seus mamilos ainda ardiam e pareciam exibir as mesmas mordidas daquela noite. Mal conseguia olhar pra si mesma. Tudo nela tinha as marcas e o cheiro dele, assim como a textura do sêmen quente sobre o seu rosto, misturado com as suas lágrimas.
Sentia-se suja e violentada mais uma vez, como se aquele homem estivesse ali novamente, agarrado ao seu corpo, destruindo-a de novo. Ele tinha roubado não somente a pureza e as fantasias de garota. Ele levou seu respeito próprio, a capacidade de encontrar felicidade e o interesse pela vida.
Não há nada em mim. Não me restou nada.
Então conseguiu ouvir o choro do bebê que não nasceu. Imaginou o rastro de sangue deixado no lençol da cama, no chão do quarto e no tapete da sala. Ela jamais seria mãe. Nunca veria a face de sua criança. Seu útero, assim como todo o resto de si mesma, estava aos pedaços. Inútil. Sem vida.
Ele me tirou tudo. Meu Deus, ele me tirou tudo!
Encontrava-se  vazia, sem perspectiva, sem sonhos.
Ela ficou de pé novamente e voltou a beirada do edifício. Colocou os dois joelhos sobre o parapeito e desviou o olhar do precipício. Se olhasse para baixo não conseguiria pular.
Quando percebeu que ainda segurava o celular, Amanda pensou na mãe.
Me perdoe, por favor.
Seus olhos se encheram de lágrimas e todo seu corpo começou a tremer.
Então respirou fundo, olhou pra cima e desejou ser feliz em outro lugar.
Então vai ser assim?, ouviu sua consciência perguntar.
Amanda tirou os joelhos do chão e se levantou. Tem que ser assim!
Mais uma vez, restava-lhe apenas um passo.
Antes de seguir em frente, ela ouviu o toque do seu celular.
Não posso atender!
Ela precisava pular agora. Se esperasse mais um segundo, talvez o ímpeto desaparecesse, fazendo-a recuar. Não, não posso voltar atrás. Sentia-se inundada por uma vontade desesperada de chegar ao fim de tudo. Não queria morrer. Só queria ser feliz de novo. Sofrer cansa. E ela estava exausta. Mas... E se eu puder viver?
O celular ainda tocava.
Se atendesse aquela ligação, certamente perderia a coragem. Mas por que não tentar mais um pouco?
Uma ponta de esperança surgiu, fazendo seu coração acelerar.
Eu não quero morrer!
Ela tocou na tela do celular e o levou em direção ao ouvido.
Alô. Amanda?
Oi, mãe ela disse com os lábios trêmulos.
Como era bom ouvir a voz dela. Talvez não estivesse sozinha.
Imaginou-se abraçada e beijada pela única pessoa que ainda estava ao lado dela.  Sua mãe sabia muito pouco da sua dor, mas certamente esperava o momento de acolhê-la. Desejou imensamente está com ela novamente. Queria sentir o calor do seu colo, o toque das suas mãos e o aconchego firme dos seus braços. Queria se sentir filha, criança mais uma vez. Talvez ainda houvesse um pouco de pureza em seu coração. Quem sabe, finalmente, pudesse ser livre como antes.
Sim, mãe, eu quero almoçar com você.
Nem tudo tinha sido destruído. Ainda lhe restava um pouco de amor.
Amanda deu um passo pra trás, afastando-se da beirada.
Espere por mim pediu chorando e depois avisou: Estou indo pra casa.

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