Amanda estava sentada no
alto de um edifício, decidindo o que fazer com a própria vida.
Havia anos que ela
desejava ter coragem para por fim aos sentimentos de aflição e tristeza. Tinha
tentado pelo menos cinco vezes, mas fracassara por medo de sofrer ainda mais. E
se eu não morrer?, perguntava-se antes de dar o próximo passo. A chance de
permanecer viva e debilitada, tornando-se um estorvo ainda maior, deixava-a
apavorada.
Mas dessa vez, sobre um
prédio de vinte e seis andares, Amanda sabia que o impacto do seu corpo contra
o chão seria fatal. Ela não teria chance alguma de sobreviver. Não precisaria
de nenhum precedimento cirúrgico, não ficaria em coma e não acordaria com sequelas
irreversíveis. Se pulasse do edifício, o fim seria absoluto e o descanso
imediato.
Mas o vento frio lá em
cima a fazia se sentir viva. Os pelos de Amanda estavam eriçados e uma onda de
energia percorria todo seu corpo, fazendo-a estremecer. Ela envolveu o colo com
os próprios braços, sentindo as mãos aquecerem os ombros e depois os dedos
tocarem a pele do rosto. Ainda estou viva, disse em pensamento,
considerando a possibilidade de seguir em frente e dar a si mesma uma nova
chance.
– Não sei se consigo...
Amanda olhou para os
pulsos e examinou as cicatrizes vermelhas e finas, que evidenciavam uma
profunda e vergonhosa fragilidade. Achou-se desprezível. Fraca. Indigna. Talvez
já não estivesse tão viva assim. Então por que morrer em pequenas doses, se
somente depois da completa morte ela estaria livre?
Não tem outro jeito,
Amanda.
Quando olhou para baixo
mais uma vez, sentiu-se puxada pela força gravitacional e praticamente
deixou-se ser atraída pela rua, muitos metros abaixo. Então agarrou-se à beirada
do parapeito e foi tomada por um enjoo que a fez virar o corpo para trás,
jogando-se de costas sobre o terraço. Arrastando-se no chão, ela se afastou da
margem e inclinou o corpo para vomitar. Como não comia a muitas horas, apenas
um líquido esbranquiçado jorrou de sua boca, sujando o seu queixo e parte do
vestido.
Por que você não consegue
fazer isso?
Tomada por uma fusão de
desespero e ódio de si mesma, Amanda colocou o rosto sobre o chão e lágrimas
começaram a cair de seus olhos. Em pouco tempo o choro se transformou em
pranto, acompanhado de gritos esporádicos. Ela não suportava mais viver dentro
de si mesma. Estava cansada de todas as ausências.
Será que nunca mais
poderia se sentir completa?
Ao seu lado, o celular
começou a tocar dentro da pequena bolsa, que estava toda suja de areia. Sem
tirar o rosto do chão, Amanda esticou o braço e pegou o aparelho. Esperou que o
choro estivesse mais controlado e em seguida atendeu a ligação.
– Oi, filha – disse alguém com uma voz serena – Onde você está?
– Oi, mãe. Estou no trabalho – Amanda mentiu.
– Você não quer almoçar aqui em casa?
– Não sei se posso, mãe.
– Tenta. Estou te esperando.
Quando desligou o
telefone, Amanda sentiu uma agonia maior do que antes. Como poderia abandonar a
mãe? Seria covardia impor sobre ela tamanha tristeza. Sua mãe sofreria. Sua mãe
sofreria muito. Mas valeria a pena insistir em viver? Não seria a vida uma
penitência maior que a dor de qualquer outra pessoa? Percebeu-se incapaz de
mudar o destino.
Por que as coisas não
foram diferentes?
Ao fechar os olhos,
todas as imagens retornaram à sua mente, arrebatando-a de um jeito devastador:
os olhos selvagens do homem sobre ela, a força dos seus braços segurando-a
pelos quadris e a saliva dele escorrendo pelos seus lábios. Ao ser penetrada
com brutalidade, Amanda sentia como se tivesse a genitália estraçalhada e a dor
alucinante continuava presente e muito real. Seus mamilos ainda ardiam e
pareciam exibir as mesmas mordidas daquela noite. Mal conseguia olhar pra si
mesma. Tudo nela tinha as marcas e o cheiro dele, assim como a textura do sêmen
quente sobre o seu rosto, misturado com as suas lágrimas.
Sentia-se suja e
violentada mais uma vez, como se aquele homem estivesse ali novamente, agarrado
ao seu corpo, destruindo-a de novo. Ele tinha roubado não somente a pureza e as
fantasias de garota. Ele levou seu respeito próprio, a capacidade de encontrar
felicidade e o interesse pela vida.
Não há nada em mim.
Não me restou nada.
Então conseguiu ouvir
o choro do bebê que não nasceu. Imaginou o rastro de sangue deixado no lençol
da cama, no chão do quarto e no tapete da sala. Ela jamais seria mãe. Nunca
veria a face de sua criança. Seu útero, assim como todo o resto de si mesma,
estava aos pedaços. Inútil. Sem vida.
Ele me tirou tudo.
Meu Deus, ele me tirou tudo!
Encontrava-se vazia, sem perspectiva, sem sonhos.
Ela ficou de pé
novamente e voltou a beirada do edifício. Colocou os dois joelhos sobre o
parapeito e desviou o olhar do precipício. Se olhasse para baixo não
conseguiria pular.
Quando percebeu que
ainda segurava o celular, Amanda pensou na mãe.
– Me perdoe, por favor.
Seus olhos se
encheram de lágrimas e todo seu corpo começou a tremer.
Então respirou fundo,
olhou pra cima e desejou ser feliz em outro lugar.
Então vai ser assim?,
ouviu sua consciência perguntar.
Amanda tirou os
joelhos do chão e se levantou. Tem que ser assim!
Mais uma vez,
restava-lhe apenas um passo.
Antes de seguir em
frente, ela ouviu o toque do seu celular.
Não posso atender!
Ela precisava pular
agora. Se esperasse mais um segundo, talvez o ímpeto desaparecesse, fazendo-a
recuar. Não, não posso voltar atrás. Sentia-se inundada por uma vontade
desesperada de chegar ao fim de tudo. Não queria morrer. Só queria ser feliz de
novo. Sofrer cansa. E ela estava exausta. Mas... E se eu puder viver?
O celular ainda
tocava.
Se atendesse aquela
ligação, certamente perderia a coragem. Mas por que não tentar mais um pouco?
Uma ponta de
esperança surgiu, fazendo seu coração acelerar.
Eu não quero morrer!
Ela tocou na tela do
celular e o levou em direção ao ouvido.
– Alô. Amanda?
– Oi, mãe – ela disse com os lábios trêmulos.
Como era bom ouvir a
voz dela. Talvez não estivesse sozinha.
Imaginou-se abraçada
e beijada pela única pessoa que ainda estava ao lado dela. Sua mãe sabia muito pouco da sua dor, mas
certamente esperava o momento de acolhê-la. Desejou imensamente está com ela
novamente. Queria sentir o calor do seu colo, o toque das suas mãos e o
aconchego firme dos seus braços. Queria se sentir filha, criança mais uma vez.
Talvez ainda houvesse um pouco de pureza em seu coração. Quem sabe, finalmente,
pudesse ser livre como antes.
Sim, mãe, eu quero
almoçar com você.
Nem tudo tinha sido
destruído. Ainda lhe restava um pouco de amor.
Amanda deu um passo
pra trás, afastando-se da beirada.
– Espere por mim – pediu chorando e depois avisou: – Estou indo pra casa.
– Espere por mim – pediu chorando e depois avisou: – Estou indo pra casa.
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