domingo, 22 de março de 2015

Vinde a mim

Ouve-se os burburinhos que vêm dos bancos de trás, dos lados e dos corredores por onde passam as primeiras pessoas. O casal disfarça, finge que não ouve, olha pra frente esperando o início da missa. Os bancos rangem ao menor movimento e o som ecoa por toda a igreja, preenchendo o silêncio dos que oram com o desconforto da maioria. As mãos continuam cruzadas, os olhares ainda são trocados e essa proximidade dos rapazes desagrada muita gente.
– Igreja é lugar sagrado – cochicha uma mulher no banco da frente que acabara de virar o rosto e olhar para o casal com o canto do olho.
O rapaz de cabelos castanhos olha para o outro de camisa azul claro, que ergue as sobrancelhas e dá de ombros. Não há muito o que fazer naquela manhã de domingo. Resta-lhes somente aguardar a missa começar, suportar o fato de não serem considerados dignos de estar ali e depois voltar para casa, para que na semana seguinte tudo aconteça de forma semelhante.
Do lado direito do banco, aproxima-se outro casal. Uma garotinha vem na frente deles, senta ao lado dos rapazes e os cumprimenta com um sorriso afetuoso. O pai olha de esguelha para os namorados, nota as mãos unidas e, depois de emitir um som gutural, pede para filha sentar perto da mãe.
– Senta aqui, Carla – ele repete depois que a menina insiste em ficar no mesmo lugar.
– Por que não posso ficar aqui? – ela pergunta.
A esposa olha para o marido com expressão de repreensão, mas ele não se importa e puxa a filha pelo braço, sem responder a pergunta feita por ela. Discretamente, um dos rapazes olha para mãe da menina. Ela retribui o olhar de um jeito solidário e envergonhado, como se disse “sinto muito por isso”. Ele acena com a cabeça e volta os olhos pra frente.
Faltam alguns minutos para a missa começar e aos poucos a catedral vai recebendo outros frequentadores. O afeto entre dois homens vai se tornando algo menos perceptível. Eles ainda são intrusos e excessivamente audaciosos por estarem ali, mas as pessoas começam a se cansar de sibilar já que isso não é suficiente para que os dois se levantem e procurem um lugar mais apropriado para agir imoralmente.
Mas basta um gesto diferente para que os ânimos acalmados se inquietem novamente e com mais força. Um deles passa a mão no cabelo do parceiro por um breve instante e inclina a cabeça levemente para tocar o seu rosto.
– Isso é um absurdo – diz alguém, em alto e bom som, no banco de trás.
– Respeitem, por favor – pede uma voz masculina e depois acrescenta: – Tem criança aqui atrás.
O casal evita olhar para as pessoas e decide omitir os gestos carinhosos. Mesmo assim há uma inquietação no lugar. Agora quem não os tinha notado começa a observá-los com olhos perscrutadores. Os dois precisam ser vigiados. Não podem ser deixados tão livremente. Caso contrário, facilmente abusarão da liberdade que os permite frequentar todos os locais, até mesmo um santuário.
Cinco minutos depois a missa começa com um cântico que diz "Vinde a mim todos. Vinde a mim todos. Os cansados vinde a mim. Os sobrecarregados vinde a mim. Vinde a mim todos. Vinde a mim. Vinde a mim todos". A igreja repete o corinho em uníssono. A liturgia prossegue.
– Vide a mim todos – repete o padre a mensagem cantada minutos antes, dando início a homilia. – Essa era a mensagem de Jesus. Mas para quem ele disse isso? – Ele fica alguns segundos em silêncio e então continua: – Ele disse para todos? Essa é uma pergunta que precisamos nos fazer. São todos ou apenas alguns que podem ir até Cristo? São todos, queridos irmãos. Ele não fez distinção. Não há exceção. Todos são bem-vindos.
A igreja fica em absoluto silêncio e os praticantes da fé cristã absorvem o precioso ensinamento. Mexem a cabeça em concordância, alguns dizem “amém” e a maioria se sente feliz e está orgulhosa, afinal os que estão ali sabem muito bem como praticar a inclusão, exatamente como Cristo ensinou. São homens e mulheres de Deus, discípulos de Jesus, que vivem o princípio de amor incondicional pregado pelo Mestre.
O sinal da paz faz a igreja se movimentar, ouvindo-se “Paz de Cristo” e “Deus o abençoe” por todos os bancos. Os dois rapazes recebem os cumprimentos dos que estão ao redor, ainda que o toque seja veloz e as palavras ditas quase aos sussurros. Somente o homem que está ao lado deles age com despreocupada indiferença, mantendo o olhar impassível e as mãos afastadas. Mas para sua surpresa, a filha tem um comportamento distinto, deixando o lugar que estava para abraçar o casal.
O pai não a interrompe nem mesmo fez cara feia. A pequena Carla é nova demais para entender que a paz de Cristo não é para todos, assim como o santo precisa ser separado do profano. Se a menina sai abraçando qualquer um é porque a inocência ainda não foi manchada pela intolerância. Quando perceber que homossexuais não são tão filhos de Deus quanto os outros, Carla ela estará pronta para reagir da maneira mais sensata.
Os cumprimentos e os votos encerram. Todos voltam a atenção novamente para o padre. A missa continua em seus ritos finais. A congregação repete as últimas palavras do folheto, declama o cântico de encerramento e aos poucos vai deixando a igreja.
Carla acena para o casal e sua mãe também se despede com expressão amigável. O pai dá as costas e deixa o lugar apressadamente, puxando as duas pelas mãos.
Quando percebem que estão sozinhos dentro do templo, os rapazes permitem dar o abraço que estavam guardando para este momento. Passam pelo corredor livremente, com os braços envoltos às costas um do outro. Despreocupados. Os santos e incorruptíveis agora estão do lado de fora. Não há mais olhares recriminativos.
“Vinde a mim” são as palavras que ecoam na mente dos dois.

Eles aceitam o chamado. Ainda que não sejam bem-vindos por muitos, há quem os receba de braços abertos. 

domingo, 15 de março de 2015

Até ontem você me amava

Raquel trouxe paz ao meu desassossego. Quando nos conhecemos, minha vida estava uma completa bagunça, sem que eu conseguisse encontrar o lugar de cada coisa. Havia um entulho enorme dentro de mim, cheio de sentimentos pútridos, emoções extraviadas e pensamentos vencidos, obsoletos. Antes dela, eu estava sempre disposto a viver a mesmice e afundar cada vez mais nas velharias do meu passado.
Meus pais são pessoas boas e honestas, mas que projetaram sobre os filhos o fracasso do matrimônio. Cresci com a aflitiva sensação de ter sido um fardo, alguém que cometeu o imperdoável erro de ter nascido. Todas as brigas, acusações e palavras cruéis entre eles sempre voltavam contra mim e meu irmão, que reagia da sua maneira, enfrentando-os e dizendo tudo o que nunca consegui.
Então descobri que a dor do silêncio supera qualquer punição. A maioria das tragédias nascem na omissão, na censura e no medo de verbalizar o que se sente. Quem dera se toda raiva e amargura guardadas fossem manifestadas. Certamente eu teria conhecido a liberdade mais cedo e aprendido a lidar com a minha própria desordem.
Mas se demorei tanto é porque Raquel ainda estava chegando. Ela foi se aproximando devagar, ganhando-me sem fazer barulho, afastando os móveis empoeirados até que tomou conta de tudo e foi colocando cada coisa no seu canto. Ajudou-me a desfazer a bagunça, jogar fora o que não me servia mais e aproveitar o que ainda tinha algum significado. Ela foi tudo pra mim. Tudo o que eu mais precisei.  
Então, como dizer que não ama mais?
Com os braços ao redor dela, eu pensava o quanto Raquel tinha me feito feliz. Ela não apenas deu novo sentido a minha vida, como trouxe humor e otimismo aos meus dias. Nossas conversas eram divertidas e até as brigas acabavam em riso. Não havia complicações entre nós. Tudo era simples. Brincávamos de namorar sério, pois tudo o que experimentamos foi quase sempre maduro, quase sempre aprendendo coisa nova e o tempo todo como entrada livre para o parque de diversões.
Eu não te amo mais, eram as palavras que repetiam na minha cabeça.
Em silêncio, Raquel me abraçava e eu sentia o cheiro dos seus cabelos. Eu não sabia como sair dali, muito menos o que eu deveria dizer. Nenhuma palavra parecia fazer sentido e qualquer outra atitude, senão aproveitar aquele momento ao lado dela, seria um grande e penoso absurdo. Quanto tempo mais teríamos juntos?
É assustador como tudo muda de repente. Sentimentos, planos, escolhas... Nada tem garantia. Tudo é mutável e simplesmente deixa de existir. Eu sempre pensei que ficaríamos juntos por muitos anos, talvez a vida inteira. Mas eu estava errado. Raquel estava errada. Nosso namoro mudou. Ela também.
Como dizer que o amor acabou?
Até hoje eu não sei, mas Raquel sabia. Raquel disse. Suas palavras foram claras e indubitáveis. Ainda posso ouvi-las, tão claramente como se as escutasse pela primeira vez. O sentimento também é nítido. É frustração o que sinto.
“Eu não te amo mais, Renan”
Depois disso, Raquel encostou o rosto em meu peito e começou a chorar. Não hesitou. Não explicou. Ela não me amava mais e não poderia voltar atrás. Admito que não sei se seu choro era de saudade ou se apenas lamentava me magoar. Mas sei que a dor do meu silêncio soava mais alto que a tristeza do seu prato.
– Você consegue me perdoar? – ela perguntou, sem tirar o rosto do meu peito.
– Você acha que eu poderia culpá-la por não me amar mais?
Raquel então olhou pra mim e levou as mãos ao meu rosto.
– Desculpa. Você é maravilhoso. Eu ainda amo você, mas de um jeito diferente. Você consegue continuar na minha vida? Eu não quero perder você.
O rosto dela tão próximo do meu me fez estremecer.
Eu consigo ficar na sua vida ainda que você não me ame?  
Desviei meus olhos do olhar dela, soltei seu corpo dos meus braços e me afastei por um instante.
Até ontem você me amava, era o que eu queria dizer. Por que você não me falou antes? Por que foi alimentando meus sentimentos para podá-los de uma só vez?
Parte de mim queria odiá-la por isso. Mas a outra parte não conseguia negar que até ontem ela tinha sido fiel e generosa, cuidando de mim sem perder o calor. Se o amor que ela me dedicou durou até ontem, eu posso dizer que até ontem ela me amou de verdade.
– Desculpa, mas eu não consigo – foi a minha resposta.
Coloquei minhas mãos em seus ombros e a puxei pra perto de mim mais uma vez. Beijei-a na testa, depois na ponta do nariz e encostei meus lábios nos seus.
– Acho que vou te amar pra sempre – sussurrei em seu ouvido.
Depois me afastei, deixei a varanda da casa e caminhei em direção a porta.
Ao olhar pra trás, Raquel enxugava as lágrimas e me encarava inexpressiva.

Essa foi a última vez que eu a vi.

sábado, 7 de março de 2015

O que você vai fazer?

O coração de Felipe estava agitado. Seus pés batiam no chão impacientes. Os segundos passavam como se fossem semanas. Por que Laura estava demorando tanto?
Ele não estava preparado para ter um filho agora. Não queria ser pai aos vinte e dois anos. Sentia-se despreparado e tinha certeza que não poderia arcar com as despesas. Mas antes de qualquer coisa, uma gravidez estava absolutamente distante dos seus planos e vontade.
Quando a garota abriu a porta do banheiro, Felipe levantou da cama e arregalou os olhos. Pela expressão apavorada de Laura, o resultado tinha sido indesejável.
– Eu estou grávida, Felipe – ela disse desanimada, esticando o braço e mostrando o resultado do teste.
– Puta que pariu!
Ele se jogou novamente sobre o colchão e levou as mãos até a cabeça, balançando-a de um lado para o outro. Eu não acredito, eu não acredito, eram as palavras que Felipe repetia mentalmente. Era uma péssima notícia.
– O que você vai fazer? – Laura perguntou, sentando-se também ao lado dele.
– Sei lá, Laura. Por que você tá me perguntando isso?
– De quem mais eu deveria perguntar, Felipe?
– Foda-se! – ele esbravejou e saiu do quarto, batendo a porta.
Atravessou a sala, saiu pela porta principal e entrou no carro. Aquele filho não era responsabilidade sua. Não era ele quem precisava ter tomado anticoncepcional. Sua única obrigação era ter usado preservativo e isso tinha feito. Definitivamente, ele não era o responsável pela gravidez. Mesmo assim estava surtando!
Sentiu ódio da ex-namorada. Felipe não a amava mais. Não queria ter um relacionamento com ela. Muito menos um filho! Não jogaria fora todos os seus planos por causa de Laura. Que merda! Estava ferrado por causa de uma garota idiota. Arrependeu-se da última transa com ela. Arrependeu-se de tê-la namorado. Se pudesse voltar atrás, sequer a teria conhecido.
Antes que ele pudesse dar a partida no carro, Laura passou pela porta da casa e começou a bater no vidro do passageiro.
– Abre essa porta, Felipe! – ela gritou.
– Foi você que fez a merda, Laura.
– Deixa de ser babaca, garoto. Abre logo essa porra.
Felipe destravou a porta e Laura entrou no carro.
– Você acha que eu engravidei sozinha, Felipe?
– Por que você não tomou a droga do remédio?
Laura o encarou com expressão de decepção.
– Não tenta fugir da responsabilidade. Você sabe muito bem que eu não tomo anticoncepcional há muito tempo.
Por um segundo, Felipe olhou para ela desconfiado, mas em seguida levou a mão até a cabeça. Que merda! Laura sofria reações adversas por causa das pílulas contraceptivas, por isso tinha escolhido não mais usá-las. Mesmo depois de quatro anos de namoro e um término desgastante, ele tinha ido pra cama novamente com ela, esquecendo-se do risco. Agora também estava com raiva de si mesmo. Por que não tinha transado com outra garota? Deveria ter resistido ao desejo de vê-la novamente.
– Eu não sei o que dizer, Laura. Eu pensei que você soubesse como evitar isso. Se você sabia que poderia acontecer...
– Não fala mais nada, Felipe – ela o interrompeu e colocou a mão sobre a maçaneta interna da porta.
Ele a segurou pelo braço.
– Eu estou errado, Laura? Não era você que deveria ter evitado isso?
– Foi você quem me procurou, Felipe!
– Por que você não recusou?
Ela puxou o braço, desvencilhando-se da mão dele, e abriu a porta do carro.
– O que você vai fazer? – perguntou Felipe. 
– Você vem à minha casa, nós dois escolhemos fazer sexo e eu sou a culpada porque a porra da camisinha estourou? Eu sou a única responsável? Só eu preciso fazer as escolhas? – Ela enxugou uma lágrima com a palma da mão. – Esquece tudo isso e vai embora.
– O que você vai fazer, Laura? – perguntou ele novamente, deixando escapar uma entonação esperançosa.
Laura deu uma risadinha debochada e frustrada.
– Eu não vou abortar, se é isso que você está pensando. Eu poderia, mas não vou.
Ela saiu do carro, mas antes de voltar para dentro da casa, falou novamente:
– Você se acha muito foda, Felipe. Se acha muito bom porque pode simplesmente desaparecer e fingir que eu não estou grávida. Então faça isso! Eu realmente não quero uma pessoa tão egoísta ao meu lado nesse momento. Mas você não tem nada de fodão. Você é só um babaca. Um covarde.
– O que você quer, Laura? – perguntou ele, colocando o braço para fora do carro. – Eu não posso ter um filho agora. Não dá pra mudar todos os meus planos.
– Eu também tenho planos.
– Então por que você vai insistir nessa gravidez?
– Porque eu posso fazer alguns sacrifícios, Felipe. Não vou abortar só porque meus planos eram diferentes. Não é assim que funciona.
– Você quem sabe. Mas eu não vou entrar nessa.
Ela deu de ombros, virou as costas e passou pela porta da casa, fechando-a com força.
Felipe ligou o carro e passou a marcha. Ele não precisava lidar com isso agora. Como poderia fazer um sacrifício por alguém que nem amava mais? Não queria estar com ela. Laura não deveria ser a mãe do seu primeiro filho. Ela era uma garota atraente, mas era apenas isso. O sexo era bom. O papo era descontraído. Divertiam-se juntos. Nada mais!
Mas e o bebê? Rejeitaria o próprio filho?
Se ele decidisse ficar, teria que abrir mão de todos os planos. Se ele entrasse naquela casa novamente, deixaria pra trás a possibilidade de mudar de cidade, ir para todos os lugares que sentisse vontade, conhecer e namorar livremente todas as garotas, viver sua solteirice sem empecilhos. Se ele descesse do carro, teria que tolerar diversas implicações, dificuldades e contratempos. Seus dias não seriam todos seus. Os gastos seriam muitos e quase não lhe restaria dinheiro. Ficaria cansado e estressado. Os próximos meses ou anos seriam uma merda!
Mas... e Laura?
Definitivamente ele não a amava, nem poderia amá-la outra vez, mas agora uma criança estava entre eles. Que raiva estava sentindo dela e de si mesmo. Por isso não conseguia culpá-la completamente. Ainda que tentasse acreditar que ela era a única responsável, sua consciência dizia o contrário. Talvez não pudesse deixá-la enfrentar tudo aquilo sozinha.
Suspirou fundo, colocou a testa sobre o volante e sentiu vontade de gritar. Queria desaparecer. Sumir! Queria ser egoísta suficiente para fingir que não seria pai. Com os punhos fechados, ele socou o painel do carro várias vezes até sentir dor.
Que porra eu fiz?
Não tinha para onde fugir. Ele seria pai. Era uma droga que a notícia o deixasse tão deprimido e desesperado. Não poderia fingir que estava feliz. Não poderia se sentir feliz. Estava frustrado. Não amava essa criança. Não queria que ela nascesse.
Mas isso não mudava nada.
Felipe recostou-se sobre o banco, respirou demoradamente e murmurou algumas palavras aborrecidas.
Então desligou o carro, abriu a porta e desceu. 
***