Ouve-se os burburinhos que vêm dos bancos de trás, dos
lados e dos corredores por onde passam as primeiras pessoas. O casal disfarça,
finge que não ouve, olha pra frente esperando o início da missa. Os bancos
rangem ao menor movimento e o som ecoa por toda a igreja, preenchendo o
silêncio dos que oram com o desconforto da maioria. As mãos continuam cruzadas,
os olhares ainda são trocados e essa proximidade dos rapazes desagrada muita
gente.
– Igreja é lugar sagrado – cochicha uma mulher no
banco da frente que acabara de virar o rosto e olhar para o casal com o canto
do olho.
O rapaz de cabelos castanhos olha para o outro de
camisa azul claro, que ergue as sobrancelhas e dá de ombros. Não há muito o que
fazer naquela manhã de domingo. Resta-lhes somente aguardar a missa começar,
suportar o fato de não serem considerados dignos de estar ali e depois voltar
para casa, para que na semana seguinte tudo aconteça de forma semelhante.
Do lado direito do banco, aproxima-se outro casal. Uma
garotinha vem na frente deles, senta ao lado dos rapazes e os cumprimenta com
um sorriso afetuoso. O pai olha de esguelha para os namorados, nota as mãos
unidas e, depois de emitir um som gutural, pede para filha sentar perto da mãe.
– Senta aqui, Carla – ele repete depois que a menina insiste
em ficar no mesmo lugar.
– Por que não posso ficar aqui? – ela pergunta.
A esposa olha para o marido com expressão de
repreensão, mas ele não se importa e puxa a filha pelo braço, sem responder a
pergunta feita por ela. Discretamente, um dos rapazes olha para mãe da menina.
Ela retribui o olhar de um jeito solidário e envergonhado, como se disse “sinto
muito por isso”. Ele acena com a cabeça e volta os olhos pra frente.
Faltam alguns minutos para a missa começar e aos
poucos a catedral vai recebendo outros frequentadores. O afeto entre dois
homens vai se tornando algo menos perceptível. Eles ainda são intrusos e
excessivamente audaciosos por estarem ali, mas as pessoas começam a se cansar
de sibilar já que isso não é suficiente para que os dois se levantem e procurem
um lugar mais apropriado para agir imoralmente.
Mas basta um gesto diferente para que os ânimos
acalmados se inquietem novamente e com mais força. Um deles passa a mão no
cabelo do parceiro por um breve instante e inclina a cabeça levemente para tocar
o seu rosto.
– Isso é um absurdo – diz alguém, em alto e bom som, no
banco de trás.
– Respeitem, por favor – pede uma voz masculina e
depois acrescenta: – Tem criança aqui atrás.
O casal evita olhar para as pessoas e decide omitir os
gestos carinhosos. Mesmo assim há uma inquietação no lugar. Agora quem não os tinha
notado começa a observá-los com olhos perscrutadores. Os dois precisam ser vigiados.
Não podem ser deixados tão livremente. Caso contrário, facilmente abusarão da
liberdade que os permite frequentar todos os locais, até mesmo um santuário.
Cinco minutos depois a missa começa com um cântico que
diz "Vinde a mim todos. Vinde a mim
todos. Os cansados vinde a mim. Os sobrecarregados vinde a mim. Vinde a mim
todos. Vinde a mim. Vinde a mim todos". A igreja repete o corinho em
uníssono. A liturgia prossegue.
– Vide a mim todos – repete o padre a mensagem cantada
minutos antes, dando início a homilia. – Essa era a mensagem de Jesus. Mas para
quem ele disse isso? – Ele fica alguns segundos em silêncio e então continua: –
Ele disse para todos? Essa é uma pergunta que precisamos nos fazer. São todos
ou apenas alguns que podem ir até Cristo? São todos, queridos irmãos. Ele não
fez distinção. Não há exceção. Todos são bem-vindos.
A igreja fica em absoluto silêncio e os praticantes da
fé cristã absorvem o precioso ensinamento. Mexem a cabeça em concordância,
alguns dizem “amém” e a maioria se sente feliz e está orgulhosa, afinal os que
estão ali sabem muito bem como praticar a inclusão, exatamente como Cristo
ensinou. São homens e mulheres de Deus, discípulos de Jesus, que vivem o
princípio de amor incondicional pregado pelo Mestre.
O sinal da paz faz a igreja se movimentar, ouvindo-se “Paz
de Cristo” e “Deus o abençoe” por todos os bancos. Os dois rapazes recebem os cumprimentos
dos que estão ao redor, ainda que o toque seja veloz e as palavras ditas quase aos
sussurros. Somente o homem que está ao lado deles age com despreocupada
indiferença, mantendo o olhar impassível e as mãos afastadas. Mas para sua surpresa,
a filha tem um comportamento distinto, deixando o lugar que estava para abraçar
o casal.
O pai não a interrompe nem mesmo fez cara feia. A
pequena Carla é nova demais para entender que a paz de Cristo não é para todos,
assim como o santo precisa ser separado do profano. Se a menina sai abraçando
qualquer um é porque a inocência ainda não foi manchada pela intolerância. Quando
perceber que homossexuais não são tão filhos de Deus quanto os outros, Carla
ela estará pronta para reagir da maneira mais sensata.
Os cumprimentos e os votos encerram. Todos voltam a
atenção novamente para o padre. A missa continua em seus ritos finais. A
congregação repete as últimas palavras do folheto, declama o cântico de
encerramento e aos poucos vai deixando a igreja.
Carla acena para o casal e sua mãe também se despede
com expressão amigável. O pai dá as costas e deixa o lugar apressadamente,
puxando as duas pelas mãos.
Quando percebem que estão sozinhos dentro do templo,
os rapazes permitem dar o abraço que estavam guardando para este momento. Passam
pelo corredor livremente, com os braços envoltos às costas um do outro.
Despreocupados. Os santos e incorruptíveis agora estão do lado de fora. Não há
mais olhares recriminativos.
“Vinde a
mim” são as palavras que ecoam na mente
dos dois.
Eles aceitam o chamado. Ainda que não sejam bem-vindos
por muitos, há quem os receba de braços abertos.