O coração de Felipe
estava agitado. Seus pés batiam no chão impacientes. Os segundos passavam como
se fossem semanas. Por que Laura estava demorando tanto?
Ele não estava preparado
para ter um filho agora. Não queria ser pai aos vinte e dois anos. Sentia-se
despreparado e tinha certeza que não poderia arcar com as despesas. Mas antes
de qualquer coisa, uma gravidez estava absolutamente distante dos seus planos e
vontade.
Quando a garota abriu a
porta do banheiro, Felipe levantou da cama e arregalou os olhos. Pela expressão
apavorada de Laura, o resultado tinha sido indesejável.
– Eu estou grávida, Felipe – ela disse desanimada,
esticando o braço e mostrando o resultado do teste.
– Puta que pariu!
Ele se jogou novamente sobre o colchão e levou as mãos
até a cabeça, balançando-a de um lado para o outro. Eu não acredito, eu não
acredito, eram as palavras que Felipe repetia mentalmente. Era uma péssima
notícia.
– O que você vai fazer? – Laura perguntou, sentando-se
também ao lado dele.
– Sei lá, Laura. Por que você tá me perguntando isso?
– De quem mais eu deveria perguntar, Felipe?
– Foda-se! – ele esbravejou e saiu do quarto, batendo
a porta.
Atravessou a sala, saiu pela porta principal e entrou
no carro. Aquele filho não era responsabilidade sua. Não era ele quem precisava
ter tomado anticoncepcional. Sua única obrigação era ter usado preservativo e
isso tinha feito. Definitivamente, ele não era o responsável pela gravidez.
Mesmo assim estava surtando!
Sentiu ódio da ex-namorada. Felipe não a amava mais.
Não queria ter um relacionamento com ela. Muito menos um filho! Não jogaria
fora todos os seus planos por causa de Laura. Que merda! Estava ferrado
por causa de uma garota idiota. Arrependeu-se da última transa com ela.
Arrependeu-se de tê-la namorado. Se pudesse voltar atrás, sequer a teria
conhecido.
Antes que ele pudesse dar a partida no carro, Laura
passou pela porta da casa e começou a bater no vidro do passageiro.
– Abre essa porta, Felipe! – ela gritou.
– Foi você que fez a merda, Laura.
– Deixa de ser babaca, garoto. Abre logo essa porra.
Felipe destravou a porta e Laura entrou no carro.
– Você acha que eu engravidei sozinha, Felipe?
– Por que você não tomou a droga do remédio?
Laura o encarou com expressão de decepção.
– Não tenta fugir da responsabilidade. Você sabe muito
bem que eu não tomo anticoncepcional há muito tempo.
Por um segundo,
Felipe olhou para ela desconfiado, mas em seguida levou a mão até a cabeça. Que
merda! Laura sofria reações adversas por causa das pílulas contraceptivas,
por isso tinha escolhido não mais usá-las. Mesmo depois de quatro anos de
namoro e um término desgastante, ele tinha ido pra cama novamente com ela,
esquecendo-se do risco. Agora também estava com raiva de si mesmo. Por que não
tinha transado com outra garota? Deveria ter resistido ao desejo de vê-la
novamente.
– Eu não sei o que dizer, Laura. Eu pensei que você
soubesse como evitar isso. Se você sabia que poderia acontecer...
– Não fala mais nada, Felipe – ela o interrompeu e
colocou a mão sobre a maçaneta interna da porta.
Ele a segurou pelo braço.
– Eu estou errado, Laura? Não era você que deveria ter
evitado isso?
– Foi você quem me procurou, Felipe!
– Por que você não recusou?
Ela puxou o braço, desvencilhando-se da mão dele, e
abriu a porta do carro.
– O que você vai fazer? – perguntou Felipe.
– Você vem à minha casa, nós dois escolhemos fazer
sexo e eu sou a culpada porque a porra da camisinha estourou? Eu sou a única
responsável? Só eu preciso fazer as escolhas? – Ela enxugou uma lágrima com a
palma da mão. – Esquece tudo isso e vai embora.
– O que você vai fazer, Laura? – perguntou ele
novamente, deixando escapar uma entonação esperançosa.
Laura deu uma risadinha debochada e frustrada.
– Eu não vou abortar, se é isso que você está
pensando. Eu poderia, mas não vou.
Ela saiu do carro, mas antes de voltar para dentro da
casa, falou novamente:
– Você se acha muito foda, Felipe. Se acha muito bom
porque pode simplesmente desaparecer e fingir que eu não estou grávida. Então
faça isso! Eu realmente não quero uma pessoa tão egoísta ao meu lado nesse
momento. Mas você não tem nada de fodão. Você é só um babaca. Um covarde.
– O que você quer, Laura? – perguntou ele, colocando o
braço para fora do carro. – Eu não posso ter um filho agora. Não dá pra mudar
todos os meus planos.
– Eu também tenho planos.
– Então por que você vai insistir nessa gravidez?
– Porque eu posso fazer alguns sacrifícios, Felipe.
Não vou abortar só porque meus planos eram diferentes. Não é assim que
funciona.
– Você quem sabe. Mas eu não vou entrar nessa.
Ela deu de ombros, virou as costas e passou pela porta
da casa, fechando-a com força.
Felipe ligou o carro
e passou a marcha. Ele não precisava lidar com isso agora. Como poderia fazer
um sacrifício por alguém que nem amava mais? Não queria estar com ela. Laura
não deveria ser a mãe do seu primeiro filho. Ela era uma garota atraente, mas
era apenas isso. O sexo era bom. O papo era descontraído. Divertiam-se juntos.
Nada mais!
Mas e o bebê? Rejeitaria o próprio filho?
Se ele decidisse
ficar, teria que abrir mão de todos os planos. Se ele entrasse naquela casa
novamente, deixaria pra trás a possibilidade de mudar de cidade, ir para todos
os lugares que sentisse vontade, conhecer e namorar livremente todas as garotas,
viver sua solteirice sem empecilhos. Se ele descesse do carro, teria que
tolerar diversas implicações, dificuldades e contratempos. Seus dias não seriam
todos seus. Os gastos seriam muitos e quase não lhe restaria dinheiro. Ficaria
cansado e estressado. Os próximos meses ou anos seriam uma merda!
Mas... e Laura?
Definitivamente ele
não a amava, nem poderia amá-la outra vez, mas agora uma criança estava entre
eles. Que raiva estava sentindo dela e de si mesmo. Por isso não conseguia culpá-la
completamente. Ainda que tentasse acreditar que ela era a única responsável,
sua consciência dizia o contrário. Talvez não pudesse deixá-la enfrentar tudo
aquilo sozinha.
Suspirou fundo,
colocou a testa sobre o volante e sentiu vontade de gritar. Queria desaparecer.
Sumir! Queria ser egoísta suficiente para fingir que não seria pai. Com os
punhos fechados, ele socou o painel do carro várias vezes até sentir dor.
Que porra eu fiz?
Não tinha para onde
fugir. Ele seria pai. Era uma droga que a notícia o deixasse tão deprimido e
desesperado. Não poderia fingir que estava feliz. Não poderia se sentir feliz.
Estava frustrado. Não amava essa criança. Não queria que ela nascesse.
Mas isso não mudava nada.
Felipe recostou-se
sobre o banco, respirou demoradamente e murmurou algumas palavras aborrecidas.
Então desligou o carro, abriu a porta e desceu.
Então desligou o carro, abriu a porta e desceu.
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