quarta-feira, 1 de abril de 2015

O futuro atrás das grades

Olhou para a rua deserta e silenciosa e quis saber o que poderia haver nos breus que se espalham nas calçadas, nos muros, nos cantos das casas, sob carros, por detrás dos arbustos e nas copas das árvores. Quais mistérios se escondem nos lugares mal vistos do bairro, da cidade, do país? A escuridão da rua tem aparência de perigo à espreita, planejando o próximo ataque.
– Finalmente as coisas podem começar a melhorar – comemorou o pai, horas antes, enquanto assistia ao telejornal da noite.
– Se Deus quiser. Essa violência toda não dá mais – concluiu a mãe, sentada em sua poltrona acolchoada em couro ecológico, reclinável e com encosto para os pés.
Na TV, o repórter anunciava a aprovação, pela Comissão de Constituição e Justiça, da PEC 171/93, que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos. Seus pais acompanhavam atentos a notícia. A expressão no olhar era de satisfação, com certa dose de entusiasmo. Sentiam-se aliviados.
– Bandido é tudo igual, mesmo – disse o pai, levantando-se para se servir novamente do jantar. Antes de deixar a sala, completou: – Tem que ir tudo pra cadeia.
A mãe consentiu com um gesto, mas depois inclinou a cabeça para o lado, franziu o cenho e ergueu os ombros, ouvindo o que dizia alguém para o repórter: “Se a PEC virar lei”, declarou o entrevistado, “adolescentes e adultos serão tratados igualmente, recebendo a mesma punição. Isso significa que jovens serão enviados para um sistema fracassado, do qual muitos outros já fazem parte e estão cada vez mais longe da reabilitação”.
– Isso é uma pena – lamenta a mulher. – Mas é inevitável. O mundo está terrível.
O garoto ainda não tinha completado 16 anos, mas faltavam poucos meses para isso. Era absurdo, mesmo assim temeu a punição dos criminosos. Mas eu não preciso ter medo, disse mentalmente, recriminando-se por tão estúpido pensamento. Afinal, a lei não seria para os jovens de bem. Os delinquentes seriam punidos. Seus pais estavam certos em comemorar. Com a redução da maioridade penal, sua família estaria mais segura e, quem sabe, todos começariam a dormir mais sossegados. Uma preocupação a menos!
– Filho, melhor você fechar o portão – avisou a mãe, notando que passava das 21 horas.
Dentro de casa, observando a rua através das grades, ele sentiu os pelos dos braços eriçarem. Imaginou-se em meio aos riscos da noite e estremeceu ao pensar no revólver contra sua costela, a faca colada à sua garganta ou penetrando a pele. Imaginou então o pivete segurando-o pela gola da camisa, ferindo-o com chutes e socos na face. Sentiu o gosto do sangue que escorreu até a boca e a punhalada nas costas. Talvez fosse esfaqueado, agredido até a morte. Talvez se tornasse mais uma vítima da violência que atormentava os que não a mereciam.
Quanto perigo, meu Deus!
Apressadamente passou a pesada corrente pela grade do portão e fechou o cadeado. Certificou-se que fechadura estava perfeitamente travada. Finalizou com os dois ferrolhos que eram presos por outros dois grandes cadeados. Feito a vistoria e garantindo que tudo estava mesmo realmente trancado, o garoto olhou para o lado de fora e ficou aliviado por estar longe do perigo.
Finalmente acreditou que estava seguro. Só não queria pensar, ainda que fosse insistente na sua cabeça, até quando as grades e os portões seriam suficientes. Até quando o mundo lá fora não seria também o mundo de dentro. Até quando as correntes e cadeados protegeriam sua família do perigo real, que não se resolve com celas e covis. Mais do que isso, quando o mundo de fora se tornaria também um problema de todos?
Deus me livre de viver do outro lado. Deus me livre de ter a vida roubada aos dezesseis. Ah, Deus me livre! Mas quem vai livrar os que estão do lado de lá?

Esquivando-se do problema, deu de ombros e entrou para dentro de casa. Talvez fosse assim mesmo o funcionamento da vida. Essa era a ordem para o progresso brasileiro – para que alguns possam ganhar um pouco de liberdade, outros precisam perdê-la completamente. Então a vida prossegue, com muitos paliativos e pouquíssimas soluções. Uma multidão de encarcerados, centenas de amedrontados e uma porção rasa de despreocupados. Sem que nada aconteça, igual permanece o futuro da maioria de nós: atrás das grades. 

domingo, 22 de março de 2015

Vinde a mim

Ouve-se os burburinhos que vêm dos bancos de trás, dos lados e dos corredores por onde passam as primeiras pessoas. O casal disfarça, finge que não ouve, olha pra frente esperando o início da missa. Os bancos rangem ao menor movimento e o som ecoa por toda a igreja, preenchendo o silêncio dos que oram com o desconforto da maioria. As mãos continuam cruzadas, os olhares ainda são trocados e essa proximidade dos rapazes desagrada muita gente.
– Igreja é lugar sagrado – cochicha uma mulher no banco da frente que acabara de virar o rosto e olhar para o casal com o canto do olho.
O rapaz de cabelos castanhos olha para o outro de camisa azul claro, que ergue as sobrancelhas e dá de ombros. Não há muito o que fazer naquela manhã de domingo. Resta-lhes somente aguardar a missa começar, suportar o fato de não serem considerados dignos de estar ali e depois voltar para casa, para que na semana seguinte tudo aconteça de forma semelhante.
Do lado direito do banco, aproxima-se outro casal. Uma garotinha vem na frente deles, senta ao lado dos rapazes e os cumprimenta com um sorriso afetuoso. O pai olha de esguelha para os namorados, nota as mãos unidas e, depois de emitir um som gutural, pede para filha sentar perto da mãe.
– Senta aqui, Carla – ele repete depois que a menina insiste em ficar no mesmo lugar.
– Por que não posso ficar aqui? – ela pergunta.
A esposa olha para o marido com expressão de repreensão, mas ele não se importa e puxa a filha pelo braço, sem responder a pergunta feita por ela. Discretamente, um dos rapazes olha para mãe da menina. Ela retribui o olhar de um jeito solidário e envergonhado, como se disse “sinto muito por isso”. Ele acena com a cabeça e volta os olhos pra frente.
Faltam alguns minutos para a missa começar e aos poucos a catedral vai recebendo outros frequentadores. O afeto entre dois homens vai se tornando algo menos perceptível. Eles ainda são intrusos e excessivamente audaciosos por estarem ali, mas as pessoas começam a se cansar de sibilar já que isso não é suficiente para que os dois se levantem e procurem um lugar mais apropriado para agir imoralmente.
Mas basta um gesto diferente para que os ânimos acalmados se inquietem novamente e com mais força. Um deles passa a mão no cabelo do parceiro por um breve instante e inclina a cabeça levemente para tocar o seu rosto.
– Isso é um absurdo – diz alguém, em alto e bom som, no banco de trás.
– Respeitem, por favor – pede uma voz masculina e depois acrescenta: – Tem criança aqui atrás.
O casal evita olhar para as pessoas e decide omitir os gestos carinhosos. Mesmo assim há uma inquietação no lugar. Agora quem não os tinha notado começa a observá-los com olhos perscrutadores. Os dois precisam ser vigiados. Não podem ser deixados tão livremente. Caso contrário, facilmente abusarão da liberdade que os permite frequentar todos os locais, até mesmo um santuário.
Cinco minutos depois a missa começa com um cântico que diz "Vinde a mim todos. Vinde a mim todos. Os cansados vinde a mim. Os sobrecarregados vinde a mim. Vinde a mim todos. Vinde a mim. Vinde a mim todos". A igreja repete o corinho em uníssono. A liturgia prossegue.
– Vide a mim todos – repete o padre a mensagem cantada minutos antes, dando início a homilia. – Essa era a mensagem de Jesus. Mas para quem ele disse isso? – Ele fica alguns segundos em silêncio e então continua: – Ele disse para todos? Essa é uma pergunta que precisamos nos fazer. São todos ou apenas alguns que podem ir até Cristo? São todos, queridos irmãos. Ele não fez distinção. Não há exceção. Todos são bem-vindos.
A igreja fica em absoluto silêncio e os praticantes da fé cristã absorvem o precioso ensinamento. Mexem a cabeça em concordância, alguns dizem “amém” e a maioria se sente feliz e está orgulhosa, afinal os que estão ali sabem muito bem como praticar a inclusão, exatamente como Cristo ensinou. São homens e mulheres de Deus, discípulos de Jesus, que vivem o princípio de amor incondicional pregado pelo Mestre.
O sinal da paz faz a igreja se movimentar, ouvindo-se “Paz de Cristo” e “Deus o abençoe” por todos os bancos. Os dois rapazes recebem os cumprimentos dos que estão ao redor, ainda que o toque seja veloz e as palavras ditas quase aos sussurros. Somente o homem que está ao lado deles age com despreocupada indiferença, mantendo o olhar impassível e as mãos afastadas. Mas para sua surpresa, a filha tem um comportamento distinto, deixando o lugar que estava para abraçar o casal.
O pai não a interrompe nem mesmo fez cara feia. A pequena Carla é nova demais para entender que a paz de Cristo não é para todos, assim como o santo precisa ser separado do profano. Se a menina sai abraçando qualquer um é porque a inocência ainda não foi manchada pela intolerância. Quando perceber que homossexuais não são tão filhos de Deus quanto os outros, Carla ela estará pronta para reagir da maneira mais sensata.
Os cumprimentos e os votos encerram. Todos voltam a atenção novamente para o padre. A missa continua em seus ritos finais. A congregação repete as últimas palavras do folheto, declama o cântico de encerramento e aos poucos vai deixando a igreja.
Carla acena para o casal e sua mãe também se despede com expressão amigável. O pai dá as costas e deixa o lugar apressadamente, puxando as duas pelas mãos.
Quando percebem que estão sozinhos dentro do templo, os rapazes permitem dar o abraço que estavam guardando para este momento. Passam pelo corredor livremente, com os braços envoltos às costas um do outro. Despreocupados. Os santos e incorruptíveis agora estão do lado de fora. Não há mais olhares recriminativos.
“Vinde a mim” são as palavras que ecoam na mente dos dois.

Eles aceitam o chamado. Ainda que não sejam bem-vindos por muitos, há quem os receba de braços abertos. 

domingo, 15 de março de 2015

Até ontem você me amava

Raquel trouxe paz ao meu desassossego. Quando nos conhecemos, minha vida estava uma completa bagunça, sem que eu conseguisse encontrar o lugar de cada coisa. Havia um entulho enorme dentro de mim, cheio de sentimentos pútridos, emoções extraviadas e pensamentos vencidos, obsoletos. Antes dela, eu estava sempre disposto a viver a mesmice e afundar cada vez mais nas velharias do meu passado.
Meus pais são pessoas boas e honestas, mas que projetaram sobre os filhos o fracasso do matrimônio. Cresci com a aflitiva sensação de ter sido um fardo, alguém que cometeu o imperdoável erro de ter nascido. Todas as brigas, acusações e palavras cruéis entre eles sempre voltavam contra mim e meu irmão, que reagia da sua maneira, enfrentando-os e dizendo tudo o que nunca consegui.
Então descobri que a dor do silêncio supera qualquer punição. A maioria das tragédias nascem na omissão, na censura e no medo de verbalizar o que se sente. Quem dera se toda raiva e amargura guardadas fossem manifestadas. Certamente eu teria conhecido a liberdade mais cedo e aprendido a lidar com a minha própria desordem.
Mas se demorei tanto é porque Raquel ainda estava chegando. Ela foi se aproximando devagar, ganhando-me sem fazer barulho, afastando os móveis empoeirados até que tomou conta de tudo e foi colocando cada coisa no seu canto. Ajudou-me a desfazer a bagunça, jogar fora o que não me servia mais e aproveitar o que ainda tinha algum significado. Ela foi tudo pra mim. Tudo o que eu mais precisei.  
Então, como dizer que não ama mais?
Com os braços ao redor dela, eu pensava o quanto Raquel tinha me feito feliz. Ela não apenas deu novo sentido a minha vida, como trouxe humor e otimismo aos meus dias. Nossas conversas eram divertidas e até as brigas acabavam em riso. Não havia complicações entre nós. Tudo era simples. Brincávamos de namorar sério, pois tudo o que experimentamos foi quase sempre maduro, quase sempre aprendendo coisa nova e o tempo todo como entrada livre para o parque de diversões.
Eu não te amo mais, eram as palavras que repetiam na minha cabeça.
Em silêncio, Raquel me abraçava e eu sentia o cheiro dos seus cabelos. Eu não sabia como sair dali, muito menos o que eu deveria dizer. Nenhuma palavra parecia fazer sentido e qualquer outra atitude, senão aproveitar aquele momento ao lado dela, seria um grande e penoso absurdo. Quanto tempo mais teríamos juntos?
É assustador como tudo muda de repente. Sentimentos, planos, escolhas... Nada tem garantia. Tudo é mutável e simplesmente deixa de existir. Eu sempre pensei que ficaríamos juntos por muitos anos, talvez a vida inteira. Mas eu estava errado. Raquel estava errada. Nosso namoro mudou. Ela também.
Como dizer que o amor acabou?
Até hoje eu não sei, mas Raquel sabia. Raquel disse. Suas palavras foram claras e indubitáveis. Ainda posso ouvi-las, tão claramente como se as escutasse pela primeira vez. O sentimento também é nítido. É frustração o que sinto.
“Eu não te amo mais, Renan”
Depois disso, Raquel encostou o rosto em meu peito e começou a chorar. Não hesitou. Não explicou. Ela não me amava mais e não poderia voltar atrás. Admito que não sei se seu choro era de saudade ou se apenas lamentava me magoar. Mas sei que a dor do meu silêncio soava mais alto que a tristeza do seu prato.
– Você consegue me perdoar? – ela perguntou, sem tirar o rosto do meu peito.
– Você acha que eu poderia culpá-la por não me amar mais?
Raquel então olhou pra mim e levou as mãos ao meu rosto.
– Desculpa. Você é maravilhoso. Eu ainda amo você, mas de um jeito diferente. Você consegue continuar na minha vida? Eu não quero perder você.
O rosto dela tão próximo do meu me fez estremecer.
Eu consigo ficar na sua vida ainda que você não me ame?  
Desviei meus olhos do olhar dela, soltei seu corpo dos meus braços e me afastei por um instante.
Até ontem você me amava, era o que eu queria dizer. Por que você não me falou antes? Por que foi alimentando meus sentimentos para podá-los de uma só vez?
Parte de mim queria odiá-la por isso. Mas a outra parte não conseguia negar que até ontem ela tinha sido fiel e generosa, cuidando de mim sem perder o calor. Se o amor que ela me dedicou durou até ontem, eu posso dizer que até ontem ela me amou de verdade.
– Desculpa, mas eu não consigo – foi a minha resposta.
Coloquei minhas mãos em seus ombros e a puxei pra perto de mim mais uma vez. Beijei-a na testa, depois na ponta do nariz e encostei meus lábios nos seus.
– Acho que vou te amar pra sempre – sussurrei em seu ouvido.
Depois me afastei, deixei a varanda da casa e caminhei em direção a porta.
Ao olhar pra trás, Raquel enxugava as lágrimas e me encarava inexpressiva.

Essa foi a última vez que eu a vi.

sábado, 7 de março de 2015

O que você vai fazer?

O coração de Felipe estava agitado. Seus pés batiam no chão impacientes. Os segundos passavam como se fossem semanas. Por que Laura estava demorando tanto?
Ele não estava preparado para ter um filho agora. Não queria ser pai aos vinte e dois anos. Sentia-se despreparado e tinha certeza que não poderia arcar com as despesas. Mas antes de qualquer coisa, uma gravidez estava absolutamente distante dos seus planos e vontade.
Quando a garota abriu a porta do banheiro, Felipe levantou da cama e arregalou os olhos. Pela expressão apavorada de Laura, o resultado tinha sido indesejável.
– Eu estou grávida, Felipe – ela disse desanimada, esticando o braço e mostrando o resultado do teste.
– Puta que pariu!
Ele se jogou novamente sobre o colchão e levou as mãos até a cabeça, balançando-a de um lado para o outro. Eu não acredito, eu não acredito, eram as palavras que Felipe repetia mentalmente. Era uma péssima notícia.
– O que você vai fazer? – Laura perguntou, sentando-se também ao lado dele.
– Sei lá, Laura. Por que você tá me perguntando isso?
– De quem mais eu deveria perguntar, Felipe?
– Foda-se! – ele esbravejou e saiu do quarto, batendo a porta.
Atravessou a sala, saiu pela porta principal e entrou no carro. Aquele filho não era responsabilidade sua. Não era ele quem precisava ter tomado anticoncepcional. Sua única obrigação era ter usado preservativo e isso tinha feito. Definitivamente, ele não era o responsável pela gravidez. Mesmo assim estava surtando!
Sentiu ódio da ex-namorada. Felipe não a amava mais. Não queria ter um relacionamento com ela. Muito menos um filho! Não jogaria fora todos os seus planos por causa de Laura. Que merda! Estava ferrado por causa de uma garota idiota. Arrependeu-se da última transa com ela. Arrependeu-se de tê-la namorado. Se pudesse voltar atrás, sequer a teria conhecido.
Antes que ele pudesse dar a partida no carro, Laura passou pela porta da casa e começou a bater no vidro do passageiro.
– Abre essa porta, Felipe! – ela gritou.
– Foi você que fez a merda, Laura.
– Deixa de ser babaca, garoto. Abre logo essa porra.
Felipe destravou a porta e Laura entrou no carro.
– Você acha que eu engravidei sozinha, Felipe?
– Por que você não tomou a droga do remédio?
Laura o encarou com expressão de decepção.
– Não tenta fugir da responsabilidade. Você sabe muito bem que eu não tomo anticoncepcional há muito tempo.
Por um segundo, Felipe olhou para ela desconfiado, mas em seguida levou a mão até a cabeça. Que merda! Laura sofria reações adversas por causa das pílulas contraceptivas, por isso tinha escolhido não mais usá-las. Mesmo depois de quatro anos de namoro e um término desgastante, ele tinha ido pra cama novamente com ela, esquecendo-se do risco. Agora também estava com raiva de si mesmo. Por que não tinha transado com outra garota? Deveria ter resistido ao desejo de vê-la novamente.
– Eu não sei o que dizer, Laura. Eu pensei que você soubesse como evitar isso. Se você sabia que poderia acontecer...
– Não fala mais nada, Felipe – ela o interrompeu e colocou a mão sobre a maçaneta interna da porta.
Ele a segurou pelo braço.
– Eu estou errado, Laura? Não era você que deveria ter evitado isso?
– Foi você quem me procurou, Felipe!
– Por que você não recusou?
Ela puxou o braço, desvencilhando-se da mão dele, e abriu a porta do carro.
– O que você vai fazer? – perguntou Felipe. 
– Você vem à minha casa, nós dois escolhemos fazer sexo e eu sou a culpada porque a porra da camisinha estourou? Eu sou a única responsável? Só eu preciso fazer as escolhas? – Ela enxugou uma lágrima com a palma da mão. – Esquece tudo isso e vai embora.
– O que você vai fazer, Laura? – perguntou ele novamente, deixando escapar uma entonação esperançosa.
Laura deu uma risadinha debochada e frustrada.
– Eu não vou abortar, se é isso que você está pensando. Eu poderia, mas não vou.
Ela saiu do carro, mas antes de voltar para dentro da casa, falou novamente:
– Você se acha muito foda, Felipe. Se acha muito bom porque pode simplesmente desaparecer e fingir que eu não estou grávida. Então faça isso! Eu realmente não quero uma pessoa tão egoísta ao meu lado nesse momento. Mas você não tem nada de fodão. Você é só um babaca. Um covarde.
– O que você quer, Laura? – perguntou ele, colocando o braço para fora do carro. – Eu não posso ter um filho agora. Não dá pra mudar todos os meus planos.
– Eu também tenho planos.
– Então por que você vai insistir nessa gravidez?
– Porque eu posso fazer alguns sacrifícios, Felipe. Não vou abortar só porque meus planos eram diferentes. Não é assim que funciona.
– Você quem sabe. Mas eu não vou entrar nessa.
Ela deu de ombros, virou as costas e passou pela porta da casa, fechando-a com força.
Felipe ligou o carro e passou a marcha. Ele não precisava lidar com isso agora. Como poderia fazer um sacrifício por alguém que nem amava mais? Não queria estar com ela. Laura não deveria ser a mãe do seu primeiro filho. Ela era uma garota atraente, mas era apenas isso. O sexo era bom. O papo era descontraído. Divertiam-se juntos. Nada mais!
Mas e o bebê? Rejeitaria o próprio filho?
Se ele decidisse ficar, teria que abrir mão de todos os planos. Se ele entrasse naquela casa novamente, deixaria pra trás a possibilidade de mudar de cidade, ir para todos os lugares que sentisse vontade, conhecer e namorar livremente todas as garotas, viver sua solteirice sem empecilhos. Se ele descesse do carro, teria que tolerar diversas implicações, dificuldades e contratempos. Seus dias não seriam todos seus. Os gastos seriam muitos e quase não lhe restaria dinheiro. Ficaria cansado e estressado. Os próximos meses ou anos seriam uma merda!
Mas... e Laura?
Definitivamente ele não a amava, nem poderia amá-la outra vez, mas agora uma criança estava entre eles. Que raiva estava sentindo dela e de si mesmo. Por isso não conseguia culpá-la completamente. Ainda que tentasse acreditar que ela era a única responsável, sua consciência dizia o contrário. Talvez não pudesse deixá-la enfrentar tudo aquilo sozinha.
Suspirou fundo, colocou a testa sobre o volante e sentiu vontade de gritar. Queria desaparecer. Sumir! Queria ser egoísta suficiente para fingir que não seria pai. Com os punhos fechados, ele socou o painel do carro várias vezes até sentir dor.
Que porra eu fiz?
Não tinha para onde fugir. Ele seria pai. Era uma droga que a notícia o deixasse tão deprimido e desesperado. Não poderia fingir que estava feliz. Não poderia se sentir feliz. Estava frustrado. Não amava essa criança. Não queria que ela nascesse.
Mas isso não mudava nada.
Felipe recostou-se sobre o banco, respirou demoradamente e murmurou algumas palavras aborrecidas.
Então desligou o carro, abriu a porta e desceu. 
***

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Duas Taças

Sentado à mesa do seu restaurante favorito, Marcelo esperava pelo namorado e refletia sobre as mudanças imprevisíveis dos últimos dois anos. Eram lembranças nem sempre agradáveis, mas indiscutivelmente significativas, que transformaram tanta coisa de um jeito rápido e inesperado.
Olhou para uma mesa no canto do restaurante e pôde ver a si mesmo ali sentado, conversando com Bruno por longas horas, bem semelhante ao casal que agora se olhava de um jeito afetuoso. O rapaz beijou a mão da garota e ela sorriu de um jeito comovido, escancarando que estava apaixonada.
Sua relação com o namorado também era assim, cheia de cumplicidade e um amor sem medo de ser visto e conhecido. Embora o namoro estivesse numa fase difícil, ele acreditava que ambos não suportariam ficar distantes por muito tempo. Sim, estavam afastados há alguns dias, mas ainda eram namorados. Tratava-se apenas de uma crise momentânea. Se Bruno tinha o convidado para aquele restaurante, Marcelo imaginava que em breve estariam reconciliados.
Mas os minutos estavam passando e nenhum sinal de Bruno. Como ele costumava ser pontual, Marcelo achou justo relevar o seu primeiro atraso.
– O senhor já foi atendido? – perguntou-lhe um dos garçons.
– Não, obrigado. Estou aguardando outra pessoa.
O casal de namorados da outra mesa se levantou e os dois deixaram o restaurante de mãos dadas. Marcelo adorava esse gesto. Sempre observava com ternura pessoas que caminhavam com as mãos entrelaçadas. Era um gesto simples, sem malícia e muito significativo. Desejava que um dia todos os casais apaixonados tivessem liberdade para dar as mãos, fossem hétero ou homossexuais.
Como as pessoas podem se importar com o amor entre duas pessoas?, perguntou-se mais uma vez, sem chegar a uma resposta.
Há poucos meses ele tinha assumido publicamente o namoro com Bruno, disposto a lidar com as oposições e tratar com indiferença todo pessimismo e negatividade. O desejo de ser honesto e autêntico em seu relacionamento era mais forte que a raiva dos intolerantes.
– Não estamos fazendo isso porque precisamos nos justificar ou esperamos a aceitação das pessoas – escreveu Bruno, algumas semanas antes, na legenda de uma foto postada nas redes sociais. Ele ainda acrescentou: – Assim como todo casal apaixonado, só queremos celebrar nossa alegria e compartilhar essa felicidade com as pessoas que se importam com a gente.
Marcelo consultou o relógio novamente e fez cara feia. Trinta minutos era muito tempo. Decidiu esperar um pouco mais antes de ligar para o namorado.
Outro garçom se aproximou, entregou o cardápio nas mãos de Marcelo e perguntou se ele desejava pedir alguma bebida. Deduzindo que o garçom estivesse sugerindo gentilmente que ele não demorasse em fazer o pedido, Marcelo pediu uma Coca-Cola para ganhar um pouco mais de tempo. No minuto seguinte, o rapaz voltou com o refrigerante.
– Algo mais, senhor?
– Não, obrigado.
Depois do primeiro gole, ele olhou para taça em sua mão e automaticamente se lembrou do seu primeiro encontro com Bruno, dois anos atrás.
Os dois estavam na mesma festa de aniversário, mas ainda não se conheciam. Marcelo acompanhava uma amiga e Bruno era um dos convidados da aniversariante. Embora tivessem amigos em comum, aquela era a primeira vez que estavam juntos no mesmo lugar.
– Deixa eu te apresentar um amigo – falou Ingra, amiga de Marcelo.
– Amigo? – ele perguntou, mostrando-se tenso.
– Relaxa, Marcelo. Você não tá na igreja.
Puxando-o pelo braço, Ingra o levou até seu amigo. Marcelo ainda conseguia lembrar a camisa vermelha que Bruno estava usando e também a sua expressão um pouco desinteressada ao cumprimentá-lo. Não foi difícil perceber que o rapaz não estava muito a fim de papo, então preferiu se afastar e deixá-lo à vontade com os outros convidados. Ainda assim, vez ou outra, Marcelo o observava discretamente e notava que seu olhar era correspondido.
Quando chegou o momento dos parabéns, os pais da aniversariante propuseram um brinde à filha. Todos os amigos levantaram as taças e começaram a brindar entre si. Tudo estava normal, mas quando Marcelo se aproximou de Bruno para brindar com ele, as duas taças se partiram completamente.
Todos ficaram assustados e houve um silêncio absoluto. Mas então, quando perceberam que nada grave tinha acontecido, a aniversariante e convidados começaram a rir, emitindo sibilos maliciosos.
– Espero que isso não signifique trezentos anos de azar – disse Marcelo, tentando disfarçar que estava constrangido.
– Espero que não, mesmo! – retrucou Bruno e depois fez graça: – Já tenho uns cinquenta anos na fila.
Então os dois riram da situação, ainda assustados com a coincidência. Observando as duas taças aos pedaços no chão da sala, eles perceberam que algo não continuaria igual. Talvez até continuassem inteiros, mas certamente não seriam os mesmos. Algo novo estava começando e muitas coisas poderiam mudar.
Depois de sorrir sozinho, Marcelo olhou mais uma vez no relógio e concluiu que algum contratempo poderia ter acontecido.
Pegou o celular que estava sobre a mesa e enviou uma mensagem para o namorado. Como não obteve resposta, achou melhor ligar. Ligou a primeira vez... não foi atendido. A segunda foi igualmente sem sucesso. Na terceira tentativa, o celular de Bruno já estava desligado. Sentindo-se completamente rejeitado, Marcelo pagou a Coca-Cola e deixou o restaurante.
Não acredito que você fez isso comigo, Bruno.
Ao entrar no carro, ele tirou uma pequena caixa do bolso e examinou as duas alianças que estavam nela. Sentiu-se patético. Seus planos tinham fracassado e, aparentemente, seu relacionamento também.
Enquanto dirigia de volta pra casa, ele imaginava se Bruno teria desistido de lutar por ele. Encheu-se de mágoa e tristeza. Esperava bem mais do namorado e já não lhe restava nenhuma esperança de reconciliação.
Quando chegou em seu apartamento, Marcelo devolveu as alianças para o bolso da calça e caminhou em direção ao quarto. Queria se jogar sobre a cama e apagar aquela noite definitivamente.
Mas ao abrir a porta do quarto, Marcelo teve uma surpresa que mudou seus planos mais uma vez:
Usando um terno elegante, Bruno estava deitado na cama, esperando-o com uma dúzia de rosas. As luzes estavam apagadas e duas velas, sobre uma pequena mesa, iluminavam o local. A mesa estava posta e uma garrafa de vinho sugeria um jantar romântico.
Marcelo não soube o que falar. Estava atônito.
Bruno se levantou, entregou as flores para o namorado e depois explicou:
– Eu só queria te fazer uma surpresa.
Marcelo já tinha esquecido toda a raiva e ressentimento que tinha sentido. Não gostava muito de surpresas, mas estava inteiramente feliz. Então segurou as rosas e abraçou o namorado por um longo tempo.
Lembrou-se da caixinha em seu bolso e, abrindo-a cuidadosamente, falou para Bruno o que havia planejado há alguns dias:
– Ainda não posso te pedir em casamento, mas quero oficializar o compromisso que sempre tivemos.
Diante das duas alianças, Bruno não conseguia verbalizar toda a felicidade que estava sentindo. Eram as alianças mais lindas que ele já tinha visto.
Mas apesar de tanta alegria, ele sabia que era um passo importante. Será que seu namorado estava mesmo ciente de todas as novas e mais intensas objeções que poderiam ter dali em diante?
– Você tem certeza? O que seus pais vão dizer?
– O mesmo que disseram até hoje – respondeu Marcelo com tranquilidade. – Muitos não vão entender. Mas já não enfrentamos todos eles antes?
A família de Marcelo era religiosa e conservadora. Assumir-se homossexual tinha sido uma decepção para seus pais e grande parte da comunidade que fazia parte. Tornou-se alvo de críticas severas e deixou de ser bem-vindo em muitos grupos que antes o recebiam de braços abertos. Alguns poucos o aceitavam, reconhecendo que sua sexualidade não poderia o impedir de viver a própria fé.
– Você tem razão – disse Bruno, orgulhoso pela coragem do namorado.
Depois de trocarem as alianças, os dois se beijaram lenta e demoradamente. Agora estavam oficialmente comprometidos e prontos para continuar a história que tinham começado.
Sentaram-se à mesa, serviram-se do vinho e brindaram ao relacionamento. Eles trocaram olhares ao constatar que as duas taças continuavam intactas, sem nenhum arranhão. Se seus sentimentos estivessem corretos, nada mais iria se quebrar a partir dali. As coisas velhas tinham passado e muitas novidades ainda seriam descobertas. Fariam isso juntos.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Me faz feliz

    
– Você vai me fazer feliz?
Hoje é o dia do meu casamento, mas eu ainda não sei se serei feliz.
Eu sempre tive medo de não encontrar quem me proporcionasse felicidade. Mas acho que todas as pessoas temem a solidão. Ainda que alguns não consigam admitir, passamos parte da vida esperando pelo momento da paixão mútua, da alegria gratuita e do relacionamento que dura a vida inteira.
Confesso que ser feliz ao lado de alguém sempre me pareceu um desejo distante, uma quimera boa, mas tão difícil de se tornar real. Todo jovem gay experimenta diariamente a incerteza de viver o amor verdadeiro. Somos programados a não acreditar no afeto entre dois homens, pois alguém disse que homossexuais são promíscuos e incapazes de estabelecer um matrimônio honesto e verdadeiro. Temos nossas emoções censuradas e a libido castrada, como se inevitavelmente estivéssemos condenados à amargura e solidão.
Como é dolorosa a sensação de ter suas esperanças reduzidas pouco a pouco. O tempo passa, o espelho revela que já não somos tão jovens e a ansiedade vai penetrando cada célula do corpo, adoecendo-nos com o pessimismo e a descrença. As pessoas que cruzam nosso caminho deixam marcas e desparecem de repente. Cada dia é uma expectativa nova. Cada sorriso parece ser a chance de finalmente começar a ser feliz. Mas quando o sorriso se desfaz, questionamos se também somos capazes de descobrir a felicidade.
Hoje é o dia do meu casamento, Gustavo tem os olhos fitos em mim e eu ainda não sei se serei feliz.
Quando nos conhecemos, eu não imaginava que ele pudesse se interessar por mim. Sequer imaginei que Gustavo se tornaria meu amigo. Ele tem uma confiança que difere absolutamente da minha timidez. Ele é espontâneo e não se preocupa com a opinião dos outros. Gustavo sempre acreditou que poderia ser feliz ao lado de um homem; eu estou descobrindo isso com ele.
Desde o começo ele provou que o amor pode nascer em qualquer relacionamento. Existe intimidade além da cama; confidência além do sexo; companheirismo e maturidade além do gozo. Quando duas pessoas se amam, a relação não termina quando a noite acaba, mas permanece e está mais forte quando o dia amanhece.
Mas depois que encontramos alguém para amar, começamos a questionar se o amor vai durar pra sempre. Qualquer coisa se transforma em ameaça. Tudo vira motivo para dúvidas e insegurança. Para quem um dia desconheceu a felicidade a dois, é apavorante imaginar-se sozinho novamente. Se você já chorou em secreto, desejando que a felicidade chegasse de repente, sabe como pode ser doloroso ver o sonho se desfazer.
Hoje é dia do meu casamento, a cerimônia vai começar e eu ainda não sei se serei feliz. Eu só quero saber se vou ser feliz. Quem não quer saber?
Abraçando-me pela cintura e com uma expressão compreensiva, Gustavo me examinava de um jeito tranquilo e paciente. Enquanto eu estava preocupado com o futuro, ele parecia satisfeito em viver aquele momento ao meu lado.
Depois de esboçar um largo sorriso, Gustavo me beijou nos lábios e finalmente respondeu:
– Não sei, meu amor. Só sei que você me faz feliz.
Abracei-o demoradamente e depois mergulhei o rosto em seus cabelos cacheados. Que vontade eu tinha de nunca mais sair daquele lugar.
Agora, enquanto passamos pelo corredor do salão, eu só consigo pensar na felicidade dele. Como é bom saber que posso fazê-lo feliz.
As pessoas nos observam, parabenizam e alguns estão emocionados. Estamos declarando o desejo de ficarmos juntos em todas as circunstâncias. Talvez isso seja suficiente para acreditar na minha felicidade.
Já não importa o que todas as pessoas me disseram. Se acreditam que podemos ser felizes, se aceitam a nossa união, se concordam com o amor entre dois homens – nada disso faz diferença. O que existe entre a gente não pode ser compreendido por mais ninguém. Eu sei que temos o suficiente para seguir em frente.
Diante de todos, Gustavo segura minha mão e me promete ser fiel.  
Enquanto ele coloca a aliança em meu dedo, eu sinto que tenho tudo pra ser muito feliz.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

O próximo passo

Amanda estava sentada no alto de um edifício, decidindo o que fazer com a própria vida.
Havia anos que ela desejava ter coragem para por fim aos sentimentos de aflição e tristeza. Tinha tentado pelo menos cinco vezes, mas fracassara por medo de sofrer ainda mais. E se eu não morrer?, perguntava-se antes de dar o próximo passo. A chance de permanecer viva e debilitada, tornando-se um estorvo ainda maior, deixava-a apavorada.  
Mas dessa vez, sobre um prédio de vinte e seis andares, Amanda sabia que o impacto do seu corpo contra o chão seria fatal. Ela não teria chance alguma de sobreviver. Não precisaria de nenhum precedimento cirúrgico, não ficaria em coma e não acordaria com sequelas irreversíveis. Se pulasse do edifício, o fim seria absoluto e o descanso imediato.
Mas o vento frio lá em cima a fazia se sentir viva. Os pelos de Amanda estavam eriçados e uma onda de energia percorria todo seu corpo, fazendo-a estremecer. Ela envolveu o colo com os próprios braços, sentindo as mãos aquecerem os ombros e depois os dedos tocarem a pele do rosto. Ainda estou viva, disse em pensamento, considerando a possibilidade de seguir em frente e dar a si mesma uma nova chance.
Não sei se consigo...
Amanda olhou para os pulsos e examinou as cicatrizes vermelhas e finas, que evidenciavam uma profunda e vergonhosa fragilidade. Achou-se desprezível. Fraca. Indigna. Talvez já não estivesse tão viva assim. Então por que morrer em pequenas doses, se somente depois da completa morte ela estaria livre?
Não tem outro jeito, Amanda.
Quando olhou para baixo mais uma vez, sentiu-se puxada pela força gravitacional e praticamente deixou-se ser atraída pela rua, muitos metros abaixo. Então agarrou-se à beirada do parapeito e foi tomada por um enjoo que a fez virar o corpo para trás, jogando-se de costas sobre o terraço. Arrastando-se no chão, ela se afastou da margem e inclinou o corpo para vomitar. Como não comia a muitas horas, apenas um líquido esbranquiçado jorrou de sua boca, sujando o seu queixo e parte do vestido.
Por que você não consegue fazer isso?
Tomada por uma fusão de desespero e ódio de si mesma, Amanda colocou o rosto sobre o chão e lágrimas começaram a cair de seus olhos. Em pouco tempo o choro se transformou em pranto, acompanhado de gritos esporádicos. Ela não suportava mais viver dentro de si mesma. Estava cansada de todas as ausências.
Será que nunca mais poderia se sentir completa?
Ao seu lado, o celular começou a tocar dentro da pequena bolsa, que estava toda suja de areia. Sem tirar o rosto do chão, Amanda esticou o braço e pegou o aparelho. Esperou que o choro estivesse mais controlado e em seguida atendeu a ligação.
Oi, filha disse alguém com uma voz serena Onde você está?
Oi, mãe. Estou no trabalho Amanda mentiu.
Você não quer almoçar aqui em casa?
Não sei se posso, mãe.
Tenta. Estou te esperando.
Quando desligou o telefone, Amanda sentiu uma agonia maior do que antes. Como poderia abandonar a mãe? Seria covardia impor sobre ela tamanha tristeza. Sua mãe sofreria. Sua mãe sofreria muito. Mas valeria a pena insistir em viver? Não seria a vida uma penitência maior que a dor de qualquer outra pessoa? Percebeu-se incapaz de mudar o destino.
Por que as coisas não foram diferentes?
Ao fechar os olhos, todas as imagens retornaram à sua mente, arrebatando-a de um jeito devastador: os olhos selvagens do homem sobre ela, a força dos seus braços segurando-a pelos quadris e a saliva dele escorrendo pelos seus lábios. Ao ser penetrada com brutalidade, Amanda sentia como se tivesse a genitália estraçalhada e a dor alucinante continuava presente e muito real. Seus mamilos ainda ardiam e pareciam exibir as mesmas mordidas daquela noite. Mal conseguia olhar pra si mesma. Tudo nela tinha as marcas e o cheiro dele, assim como a textura do sêmen quente sobre o seu rosto, misturado com as suas lágrimas.
Sentia-se suja e violentada mais uma vez, como se aquele homem estivesse ali novamente, agarrado ao seu corpo, destruindo-a de novo. Ele tinha roubado não somente a pureza e as fantasias de garota. Ele levou seu respeito próprio, a capacidade de encontrar felicidade e o interesse pela vida.
Não há nada em mim. Não me restou nada.
Então conseguiu ouvir o choro do bebê que não nasceu. Imaginou o rastro de sangue deixado no lençol da cama, no chão do quarto e no tapete da sala. Ela jamais seria mãe. Nunca veria a face de sua criança. Seu útero, assim como todo o resto de si mesma, estava aos pedaços. Inútil. Sem vida.
Ele me tirou tudo. Meu Deus, ele me tirou tudo!
Encontrava-se  vazia, sem perspectiva, sem sonhos.
Ela ficou de pé novamente e voltou a beirada do edifício. Colocou os dois joelhos sobre o parapeito e desviou o olhar do precipício. Se olhasse para baixo não conseguiria pular.
Quando percebeu que ainda segurava o celular, Amanda pensou na mãe.
Me perdoe, por favor.
Seus olhos se encheram de lágrimas e todo seu corpo começou a tremer.
Então respirou fundo, olhou pra cima e desejou ser feliz em outro lugar.
Então vai ser assim?, ouviu sua consciência perguntar.
Amanda tirou os joelhos do chão e se levantou. Tem que ser assim!
Mais uma vez, restava-lhe apenas um passo.
Antes de seguir em frente, ela ouviu o toque do seu celular.
Não posso atender!
Ela precisava pular agora. Se esperasse mais um segundo, talvez o ímpeto desaparecesse, fazendo-a recuar. Não, não posso voltar atrás. Sentia-se inundada por uma vontade desesperada de chegar ao fim de tudo. Não queria morrer. Só queria ser feliz de novo. Sofrer cansa. E ela estava exausta. Mas... E se eu puder viver?
O celular ainda tocava.
Se atendesse aquela ligação, certamente perderia a coragem. Mas por que não tentar mais um pouco?
Uma ponta de esperança surgiu, fazendo seu coração acelerar.
Eu não quero morrer!
Ela tocou na tela do celular e o levou em direção ao ouvido.
Alô. Amanda?
Oi, mãe ela disse com os lábios trêmulos.
Como era bom ouvir a voz dela. Talvez não estivesse sozinha.
Imaginou-se abraçada e beijada pela única pessoa que ainda estava ao lado dela.  Sua mãe sabia muito pouco da sua dor, mas certamente esperava o momento de acolhê-la. Desejou imensamente está com ela novamente. Queria sentir o calor do seu colo, o toque das suas mãos e o aconchego firme dos seus braços. Queria se sentir filha, criança mais uma vez. Talvez ainda houvesse um pouco de pureza em seu coração. Quem sabe, finalmente, pudesse ser livre como antes.
Sim, mãe, eu quero almoçar com você.
Nem tudo tinha sido destruído. Ainda lhe restava um pouco de amor.
Amanda deu um passo pra trás, afastando-se da beirada.
Espere por mim pediu chorando e depois avisou: Estou indo pra casa.