sábado, 17 de janeiro de 2015

Três Loucos Amores - Capítulo 1 - "Danilo, Malu e Benício"



Ela estava deitada no chão e com a cabeça recostada sobre as costas de Danilo, enquanto lia alguns versos de Mário Quintana. Seus cabelos, que estavam mais claros e longos, deslizavam pelas pernas do rapaz, que repousava a cabeça sobre os próprios braços. Eles se conheciam desde os cinco anos de idade, quando os pais de Maria Luíza, após o primeiro divórcio, decidiram casar novamente e morar em outro estado. Dois anos depois, a menina viu seu pai sair de casa novamente, quase entendendo que o veria pela última vez. Foi nesse mesmo dia que Danilo surgiu na sua vida, após um encontro nada convencional.
– Você não imagina o que eu lembrei agora – Danilo falou de supetão, em tom de gracejo, virando o rosto para trás o máximo que pôde.
Maria Luíza interrompeu a leitura e falou energeticamente:
– Não quero saber das tuas aventuras sexuais.
– Mas é doida! Não tem nada a ver com isso, Malu.
Danilo virou o corpo de maneira brusca, deixando a garota escorregar propositalmente.
– Quase você me machuca, seu ogro –  protestou enraivecida, levantando do chão rapidamente e dando um soquinho no ombro do amigo.
Maria Luíza mexeu a cabeça de um lado para outro, alongando o pescoço. Ficar deitada com a cabeça sobre as costas de Danilo era um hábito não muito confortável. O rapaz era grande o suficiente pra causar um leve torcicolo. Na verdade, ela sempre acabava arrependida da brincadeira.
– Lembrei do dia que a gente se conheceu – Danilo explicou sorridente. – Acho que vai fazer uns dezenove anos, não é isso?
Ela esboçou um largo sorriso. Era incrível como o tempo tinha passado tão veloz.
– Dezenove anos atrás você me jogou do escorregador do parquinho, Malu.
Maria Luíza arregalou os olhos e berrou no seu melhor agudo:
– Eu te empurrei, Danilo? Eu?
– E agora me deixou surdo – reclamou Danilo, levando as duas mãos em direção às orelhas. – Escandalosa! Você tentou me matar quando a gente tinha cinco anos, Maria Luíza. Nem começa a fingir.
– Ai, seu sínico. Foi você que puxou o meu cabelo e depois me empurrou daquele escorregador. – Ela levantou a barra da calça e mostrou uma pequena cicatriz no tornozelo. – E eu posso provar com isso aqui.
Danilo chegou bem perto da cicatriz e semicerrou os olhos, fingindo que não conseguia enxergar. Ele meneou a cabeça negativamente e apontou para o próprio joelho.
– Isso aqui, sim, prova que fui vítima.
– Não, querido. Essa cicatriz aí prova que você sempre foi um pentelho.
– Olha, que absurdo! – ele falou bastante dramático.
– Nem vem! Você caiu da árvore, Danilo. Foi querer dar um de esperto, achando que estava no melhor esconderijo de todos, resultado: isso aí! E ainda caiu em cima do Pirulito. Coitado.
Danilo riu alto e Maria Luíza o acompanhou na gargalhada. Os dois ficaram encostados no sofá e ali perderam as horas, trocando lembranças e rindo aos montes. Maria Luíza era ótima para lembrar todos os menores e aparentemente supérfluos detalhes, enquanto Danilo tentava distorcer as histórias que não o agradavam. Em algum momento os dois choraram. Ambos conheciam bem as suas dores. Após dezenove anos de amizade, eles também haviam colecionado problemas, situações difíceis, que a vida tinha reservado sem pedir permissão; surpresas que deixaram cicatrizes interiores. Mas naquele momento, não houve muito espaço para lamúrias.
Estamos juntos há quase duas décadas, Danilo pensou enquanto observava Maria Luíza mexer os braços freneticamente e falar sem parar. Malu era uma menina linda sem fazer esforço algum. E naquele dia, ela parecia estonteante, resplandecente. Sempre que sorria, Maria Luíza ficava com os olhos bem fechadinhos, pequenininhos. Danilo adorava aquilo. Adorava também os seus cabelos castanhos ondulados, que cheiravam a camomila com leite. Sem falar em seus dentes brancos e lábios rosados, que pareciam pedir um beijo.
Danilo apertou os olhos e colocou a mão sobre o rosto. Que pensamento era aquele? Malu era sua amiga, sua protegida, a menina dos seus olhos. Não havia atração entre eles. Não era tesão. Era amor. Puramente platônico. E se algo estivesse mudando, a situação se tornaria inconsistente. Danilo sabia que suas chances tinham ficado no passado.
– Você está bem? – perguntou Maria Luíza, interrompendo os pensamentos de Danilo. – Você ficou estranho agora. Lembrou de alguma coisa?
Ele ia inventar uma mentira qualquer quando, do lado de fora da casa, uma buzina mudou o rumo da conversa.
– Deve ser o Pirulito – ele sugeriu.
– Acho que sim.
Maria Luíza caminhou em direção a porta e, voltando-se para Danilo, contestou:
– E não chama ele de Pirulito. Você sabe que ele odeia.                       
Danilo fez uma careta, resmungou alguma baixaria e pegou uma toalha que estava jogada sobre o sofá.
– Vou tomar um banho – falou enquanto fechava a porta do banheiro. Em seguida falou quase gritando, em tom de advertência: – Mas se controlem, vocês dois. Não deixa o Benício querer usar o pirulito dele.
Maria Luíza, que fingiu não ouvir o comentário cretino de Danilo, recebeu o namorado com um beijo rápido.
– Eu trouxe sushi. – Benício mostrou a sacola que estava segurando.
– Que bom que você adivinhou, amor.                                                
Ele sempre adivinhava. Benício era o tipo de namorado atencioso, que notava detalhes pequenos e percebia as coisas no ar. Era bonito, com um olhar marcante. Seu corpo era magro e bem torneado, sem a ajuda da musculação. Benício adorava tênis, corrida e treinos com corda, atividades que praticava semanalmente. Era um jovem saudável e bem quisto por todos. Não colecionava amigos, mas zelava pelos seus. Benício e Malu namoravam há menos de três meses, embora tivessem se conhecido quando crianças, alguns anos depois do incidente envolvendo Danilo e o escorregador. Desde então, os três não se largaram mais. Tratavam-se como irmãos, o que tornou o namoro entre Malu e Benício uma surpresa realmente inesperada, quase incestuosa.
Maria Luíza o beijou novamente e pegou a sacola de sua mão, levando-a para a cozinha. Benício sorriu e deu uma olhada ao redor, estranhando o silêncio do lugar.
– Pensei que o Danilo estivesse aqui.
Maria Luíza respondeu da cozinha, intensificando a voz:
– Tá tomando banho.
– Que bom! É um favor que ele nos faz.
Benício sentou no sofá e colocou os pés sobre a mesa de centro. Maria Luíza se aproximou e o abraçou por cima dos ombros.
– Você não sabe o que a Danilo tentou hoje.
– Se foi te agarrar, ele vai morrer.
– E quem vai matar?
– Eu, claro.
Benício riu de si mesmo. Ele mal conseguia matar baratas. Sentia pena. Talvez medo. Ou era nojo?
– Ele tentou me culpar por aquela cicatriz que ele tem no joelho, acredita? – contou Malu indignada. – E ainda disse que eu tinha empurrado ele do escorregador.
Benício virou o corpo no sofá, ficando de frente para Maria Luíza.
– Olha que sacanagem! – esbravejou também inconformado. – Como se eu não lembrasse que ele caiu em cima de mim.
Maria Luíza concordou com a cabeça e sorriu.
– Eu sei. Naquele tempo você ainda era o Pirulito – ela falou, segurando uma gargalhada. – Um pirulito com braços e pernas.
Benício fez uma careta e cruzou os braços.
– Mas agora você está um pedaço de mau caminho.
Maria Luíza deu a volta no sofá, sentou no colo de Benício e o beijou.
Ela gostava de beijá-lo. Seus lábios eram macios e movimentavam-se de maneira suave, como se não tivessem pressa. Mas às vezes, ela desejava um beijo mais veroz e apressado, daqueles que tiram o fôlego. 
Danilo, que acabara de sair do banheiro, passou pela sala e, vendo os dois amigos juntos, tentou disfarçar o ciúme com um gracejo:
– Procurem um quarto, por favor.
Maria Luíza sorriu para Benício e o beijou rapidamente no rosto. Então, levantou-se e saiu em direção à cozinha, esbarrando propositalmente em Danilo, que balançava a cabeça de um lado para outro, como se estivesse a censurando.
– Me poupe, garoto. Papai foi embora faz tempo.
 Danilo riu e sentou ao lado de Benício.
– Ainda não acredito que vocês estão namorando
– Acho que nem eu acredito – disse Benício com franqueza, mas logo mudou de assunto: – E o seu rolo com a Vitória?
Danilo entortou a boca e começou a puxar o lóbulo da orelha. Benício sabia que aquele gesto sempre significava a mesma coisa.
– Poxa, Dan! Pensa bem. A Vitória gosta mesmo de você.
– Como você sabe?
– O Vinícius me contou.
– Eu sei que ela é uma garota incrível – Danilo tentou justificar. – Mas você sabe que ela quer namorar e eu...
– Quer ficar na putaria pra sempre.
– Sim. Mais ou menos isso.
– Uma hora você vai ter que se ajeitar, meu amigo.
– Eu sei, mas agora não. – Danilo soltou o ar demoradamente e se levantou. – Eu vou me trocar.
Ele não estava com disposição nem com vontade de fingir que tudo estava normal. Não queria mentir para Benício. Nunca havia escondido nada dele. Mas agora, o seu melhor amigo era o namorado da sua melhor amiga. Algumas coisas teriam que mudar e isso já estava acontecendo.
Benício observou o amigo caminhar e desaparecer no corredor. Danilo estava só de toalha, exibindo o corpo esguio e bronzeado. Para alguns, Danilo estava perdendo as formas definidas e ganhando algumas gordurinhas mais visíveis, mas para Benício ele estava mais lindo do que nunca. Benício colocou os dois braços sobre a cabeça e deixou o corpo cair sobre o sofá. Uma onda de medo o invadiu, trazendo uma porção de questionamentos. Ele pensou em Malu, a sua melhor amiga e também namorada. Ele a amava demais para permitir que ela sofresse. Por que eu estou fazendo isso?, perguntou pra si mesmo em silêncio. Benício namorava Malu, enquanto o seu coração batia mais forte por Danilo. Sentiu-se envergonhado e desleal.
Não posso fazer isso. Não posso mentir pra ela.
Benício levantou do sofá e caminhou até a cozinha, sentindo as mãos frias e trêmulas. Ele teria coragem suficiente para contar a verdade?
– Você quer um copo de suco? – perguntou Maria Luíza ao vê-lo passar pela porta. – Acabei de fazer.
Benício meneou a cabeça pra cima e pra baixo. Ele puxou uma cadeira e sentou à mesa. Não tinha pra onde correr. Era preciso encarar os fatos.
Maria Luíza entregou o copo de suco e sentou ao lado dele.
– Está tudo bem? – perguntou, percebendo preocupação no rosto dele.
– Faz tempo que eu quero te contar uma coisa – ele começou a falar, visivelmente nervoso. – Mas eu nunca tive coragem. Somos amigos, eu sei. Mesmo assim...
– Somos mais do que amigos, Ben – ela o interrompeu educadamente. – Somos companheiros. O namoro não mudou e nunca vai mudar isso. Você pode me contar qualquer coisa.
Benício aquiesceu.
– É sobre o Danilo – ele falou com a voz hesitante.
– O que tem ele?
Caramba, como vou explicar isso?
Benício notou os olhos atentos e amorosos de Maria Luíza. Perguntou pra si mesmo se ainda poderiam ser amigos como antes.
Então procurou as palavras certas e colocou a mão fria sobre a dela.
Mas antes que ele pudesse continuar, Danilo entrou na cozinha com os olhos marejados e respiração ofegante. Seu rosto estava vermelho, como se tivesse corrido por horas.
– O que foi, Dan? – perguntou Malu.
– A minha mãe – ele disse segurando o choro. – Ela sofreu um AVC e está muito mal.
Um minuto depois, os três saíram de casa às pressas.


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