Ela estava
deitada no chão e com a cabeça recostada sobre as costas de Danilo, enquanto
lia alguns versos de Mário Quintana. Seus cabelos, que estavam mais claros e
longos, deslizavam pelas pernas do rapaz, que repousava a cabeça sobre os
próprios braços. Eles se conheciam desde os cinco anos de idade, quando os pais
de Maria Luíza, após o primeiro divórcio, decidiram casar novamente e morar em
outro estado. Dois anos depois, a menina viu seu pai sair de casa novamente, quase
entendendo que o veria pela última vez. Foi nesse mesmo dia que Danilo surgiu
na sua vida, após um encontro nada convencional.
– Você não
imagina o que eu lembrei agora – Danilo falou de supetão, em tom de gracejo,
virando o rosto para trás o máximo que pôde.
Maria Luíza
interrompeu a leitura e falou energeticamente:
– Não quero
saber das tuas aventuras sexuais.
– Mas é
doida! Não tem nada a ver com isso, Malu.
Danilo virou
o corpo de maneira brusca, deixando a garota escorregar propositalmente.
– Quase você
me machuca, seu ogro – protestou
enraivecida, levantando do chão rapidamente e dando um soquinho no ombro do
amigo.
Maria Luíza
mexeu a cabeça de um lado para outro, alongando o pescoço. Ficar deitada com a
cabeça sobre as costas de Danilo era um hábito não muito confortável. O rapaz
era grande o suficiente pra causar um leve torcicolo. Na verdade, ela sempre
acabava arrependida da brincadeira.
– Lembrei do
dia que a gente se conheceu – Danilo explicou sorridente. – Acho que vai fazer
uns dezenove anos, não é isso?
Ela esboçou
um largo sorriso. Era incrível como o tempo tinha passado tão veloz.
– Dezenove
anos atrás você me jogou do escorregador do parquinho, Malu.
Maria Luíza
arregalou os olhos e berrou no seu melhor agudo:
– Eu te
empurrei, Danilo? Eu?
– E agora me
deixou surdo – reclamou Danilo, levando as duas mãos em direção às orelhas. –
Escandalosa! Você tentou me matar quando a gente tinha cinco anos, Maria Luíza.
Nem começa a fingir.
– Ai, seu
sínico. Foi você que puxou o meu cabelo e depois me empurrou daquele
escorregador. – Ela levantou a barra da calça e mostrou uma pequena cicatriz no
tornozelo. – E eu posso provar com isso aqui.
Danilo
chegou bem perto da cicatriz e semicerrou os olhos, fingindo que não conseguia
enxergar. Ele meneou a cabeça negativamente e apontou para o próprio joelho.
– Isso aqui,
sim, prova que fui vítima.
– Não,
querido. Essa cicatriz aí prova que você sempre foi um pentelho.
– Olha, que
absurdo! – ele falou bastante dramático.
– Nem vem!
Você caiu da árvore, Danilo. Foi querer dar um de esperto, achando que estava
no melhor esconderijo de todos, resultado: isso aí! E ainda caiu em cima do
Pirulito. Coitado.
Danilo riu
alto e Maria Luíza o acompanhou na gargalhada. Os dois ficaram encostados no
sofá e ali perderam as horas, trocando lembranças e rindo aos montes. Maria
Luíza era ótima para lembrar todos os menores e aparentemente supérfluos
detalhes, enquanto Danilo tentava distorcer as histórias que não o agradavam.
Em algum momento os dois choraram. Ambos conheciam bem as suas dores. Após
dezenove anos de amizade, eles também haviam colecionado problemas, situações
difíceis, que a vida tinha reservado sem pedir permissão; surpresas que
deixaram cicatrizes interiores. Mas naquele momento, não houve muito espaço para
lamúrias.
Estamos juntos há quase duas décadas, Danilo pensou enquanto observava Maria
Luíza mexer os braços freneticamente e falar sem parar. Malu era uma menina
linda sem fazer esforço algum. E naquele dia, ela parecia estonteante,
resplandecente. Sempre que sorria, Maria Luíza ficava com os olhos bem
fechadinhos, pequenininhos. Danilo adorava aquilo. Adorava também os seus
cabelos castanhos ondulados, que cheiravam a camomila com leite. Sem falar em
seus dentes brancos e lábios rosados, que pareciam pedir um beijo.
Danilo
apertou os olhos e colocou a mão sobre o rosto. Que pensamento era aquele? Malu era sua amiga, sua protegida, a
menina dos seus olhos. Não havia atração entre eles. Não era tesão. Era amor. Puramente platônico. E se algo estivesse
mudando, a situação se tornaria inconsistente. Danilo sabia que suas chances
tinham ficado no passado.
– Você está
bem? – perguntou Maria Luíza, interrompendo os pensamentos de Danilo. – Você
ficou estranho agora. Lembrou de alguma coisa?
Ele ia
inventar uma mentira qualquer quando, do lado de fora da casa, uma buzina mudou
o rumo da conversa.
– Deve ser o
Pirulito – ele sugeriu.
– Acho que
sim.
Maria Luíza
caminhou em direção a porta e, voltando-se para Danilo, contestou:
– E não
chama ele de Pirulito. Você sabe que ele odeia.
Danilo fez
uma careta, resmungou alguma baixaria e pegou uma toalha que estava jogada
sobre o sofá.
– Vou tomar
um banho – falou enquanto fechava a porta do banheiro. Em seguida falou quase
gritando, em tom de advertência: – Mas se controlem, vocês dois. Não deixa o
Benício querer usar o pirulito dele.
Maria Luíza,
que fingiu não ouvir o comentário cretino de Danilo, recebeu o namorado com um
beijo rápido.
– Eu trouxe
sushi. – Benício mostrou a sacola que estava segurando.
– Que bom
que você adivinhou, amor.
Ele sempre
adivinhava. Benício era o tipo de namorado atencioso, que notava detalhes
pequenos e percebia as coisas no ar. Era bonito, com um olhar marcante. Seu
corpo era magro e bem torneado, sem a ajuda da musculação. Benício adorava
tênis, corrida e treinos com corda, atividades que praticava semanalmente. Era
um jovem saudável e bem quisto por todos. Não colecionava amigos, mas zelava
pelos seus. Benício e Malu namoravam há menos de três meses, embora tivessem se
conhecido quando crianças, alguns anos depois do incidente envolvendo Danilo e
o escorregador. Desde então, os três não se largaram mais. Tratavam-se como
irmãos, o que tornou o namoro entre Malu e Benício uma surpresa realmente
inesperada, quase incestuosa.
Maria Luíza
o beijou novamente e pegou a sacola de sua mão, levando-a para a cozinha.
Benício sorriu e deu uma olhada ao redor, estranhando o silêncio do lugar.
– Pensei que
o Danilo estivesse aqui.
Maria Luíza
respondeu da cozinha, intensificando a voz:
– Tá tomando
banho.
– Que bom! É
um favor que ele nos faz.
Benício
sentou no sofá e colocou os pés sobre a mesa de centro. Maria Luíza se
aproximou e o abraçou por cima dos ombros.
– Você não
sabe o que a Danilo tentou hoje.
– Se foi te
agarrar, ele vai morrer.
– E quem vai
matar?
– Eu, claro.
Benício riu
de si mesmo. Ele mal conseguia matar baratas. Sentia pena. Talvez medo. Ou era
nojo?
– Ele tentou
me culpar por aquela cicatriz que ele tem no joelho, acredita? – contou Malu
indignada. – E ainda disse que eu tinha empurrado ele do escorregador.
Benício
virou o corpo no sofá, ficando de frente para Maria Luíza.
– Olha que
sacanagem! – esbravejou também inconformado. – Como se eu não lembrasse que ele
caiu em cima de mim.
Maria Luíza
concordou com a cabeça e sorriu.
– Eu sei.
Naquele tempo você ainda era o Pirulito – ela falou, segurando uma gargalhada.
– Um pirulito com braços e pernas.
Benício fez
uma careta e cruzou os braços.
– Mas agora
você está um pedaço de mau caminho.
Maria Luíza
deu a volta no sofá, sentou no colo de Benício e o beijou.
Ela gostava
de beijá-lo. Seus lábios eram macios e movimentavam-se de maneira suave, como
se não tivessem pressa. Mas às vezes, ela desejava um beijo mais veroz e apressado,
daqueles que tiram o fôlego.
Danilo, que
acabara de sair do banheiro, passou pela sala e, vendo os dois amigos juntos,
tentou disfarçar o ciúme com um gracejo:
– Procurem
um quarto, por favor.
Maria Luíza
sorriu para Benício e o beijou rapidamente no rosto. Então, levantou-se e saiu
em direção à cozinha, esbarrando propositalmente em Danilo, que balançava a
cabeça de um lado para outro, como se estivesse a censurando.
– Me poupe,
garoto. Papai foi embora faz tempo.
Danilo
riu e sentou ao lado de Benício.
– Ainda não
acredito que vocês estão namorando
– Acho que
nem eu acredito – disse Benício com franqueza, mas logo mudou de assunto: – E o
seu rolo com a Vitória?
Danilo
entortou a boca e começou a puxar o lóbulo da orelha. Benício sabia que aquele
gesto sempre significava a mesma coisa.
– Poxa, Dan!
Pensa bem. A Vitória gosta mesmo de você.
– Como você
sabe?
– O Vinícius
me contou.
– Eu sei que
ela é uma garota incrível – Danilo tentou justificar. – Mas você sabe que ela
quer namorar e eu...
– Quer ficar
na putaria pra sempre.
– Sim. Mais
ou menos isso.
– Uma hora
você vai ter que se ajeitar, meu amigo.
– Eu sei,
mas agora não. – Danilo soltou o ar demoradamente e se levantou. – Eu vou me
trocar.
Ele não
estava com disposição nem com vontade de fingir que tudo estava normal. Não
queria mentir para Benício. Nunca havia escondido nada dele. Mas agora, o seu
melhor amigo era o namorado da sua melhor amiga. Algumas coisas teriam que
mudar e isso já estava acontecendo.
Benício
observou o amigo caminhar e desaparecer no corredor. Danilo estava só de
toalha, exibindo o corpo esguio e bronzeado. Para alguns, Danilo estava
perdendo as formas definidas e ganhando algumas gordurinhas mais visíveis, mas
para Benício ele estava mais lindo do que nunca. Benício colocou os dois braços
sobre a cabeça e deixou o corpo cair sobre o sofá. Uma onda de medo o invadiu,
trazendo uma porção de questionamentos. Ele pensou em Malu, a sua melhor amiga
e também namorada. Ele a amava demais para permitir que ela sofresse. Por que eu estou fazendo isso?,
perguntou pra si mesmo em silêncio. Benício namorava Malu, enquanto o seu
coração batia mais forte por Danilo. Sentiu-se envergonhado e desleal.
Não posso fazer isso. Não posso mentir pra ela.
Benício
levantou do sofá e caminhou até a cozinha, sentindo as mãos frias e trêmulas.
Ele teria coragem suficiente para contar a verdade?
– Você quer
um copo de suco? – perguntou Maria Luíza ao vê-lo passar pela porta. – Acabei
de fazer.
Benício
meneou a cabeça pra cima e pra baixo. Ele puxou uma cadeira e sentou à mesa.
Não tinha pra onde correr. Era preciso encarar os fatos.
Maria Luíza
entregou o copo de suco e sentou ao lado dele.
– Está tudo
bem? – perguntou, percebendo preocupação no rosto dele.
– Faz tempo
que eu quero te contar uma coisa – ele começou a falar, visivelmente nervoso. –
Mas eu nunca tive coragem. Somos amigos, eu sei. Mesmo assim...
– Somos mais
do que amigos, Ben – ela o interrompeu educadamente. – Somos companheiros. O
namoro não mudou e nunca vai mudar isso. Você pode me contar qualquer coisa.
Benício
aquiesceu.
– É sobre o
Danilo – ele falou com a voz hesitante.
– O que tem
ele?
Caramba, como vou explicar isso?
Benício
notou os olhos atentos e amorosos de Maria Luíza. Perguntou pra si mesmo se
ainda poderiam ser amigos como antes.
Então
procurou as palavras certas e colocou a mão fria sobre a dela.
Mas antes
que ele pudesse continuar, Danilo entrou na cozinha com os olhos marejados e
respiração ofegante. Seu rosto estava vermelho, como se tivesse corrido por
horas.
– O que foi,
Dan? – perguntou Malu.
– A minha
mãe – ele disse segurando o choro. – Ela sofreu um AVC e está muito mal.
Um minuto depois, os três saíram de casa às pressas.
♥♥♥
Nenhum comentário:
Postar um comentário