Vitória não conseguia pegar no sono.
Estava deitada, com um travesseiro entre
as pernas e os olhos fixos no teto. Conferia as notificações do celular a cada
cinco minutos. Sentia-se cansada, mas estava preocupada demais para dormir.
Pensava em Danilo e desejava estar com ele, cuidando e fazendo companhia. Era
horrível imaginá-lo com a mãe hospitalizada, sem poder fazer nada para
ajudá-lo.
Ela sabia que não era correspondida, mas
estava apaixonada e não conseguia evitar. Amou Danilo desde o início, quando
saíram pela primeira vez. Considerava-se uma boba sentimental, que nutria um
sentimento por alguém indisponível, quase inacessível. Depois de cinco semanas
juntos, Danilo ainda era um parceiro fogoso, gentil e atencioso, mas
absolutamente boêmio.
Alguns dias antes, quando estavam
deitados na cama, ainda trêmulos por causa do sexo, Vitória colocou o braço e a
perna sobre Danilo, acariciando-o o abdômen com os dedos da mão.
– Eu adoro você – ela disse.
Danilo pareceu ignorar no primeiro
instante, mas depois de algum tempo passou a mão pelo corpo dela, tocando-a nos
seios e depois na boca.
– Você é a garota mais doce que eu
conheci.
Depois de beijá-lo vagarosamente, sentindo o coração bater mais forte,
Vitória colocou as pernas entre a cintura dele, apoiando os joelhos sobre o
colchão, e Danilo inclinou o corpo para beijá-la nos seios. Os dois transaram
pela terceira vez.
Quando o dia amanheceu, ela acordou sozinha na cama, sem Danilo ao
lado. Isso era comum. Sabia que ele preferia acordar bem cedo para evitar um romântico
encontro matinal, como acontece com a maioria dos casais. Mas para sua
surpresa, Danilo abriu a porta do quarto só de toalha, com os cabelos molhados.
Ele tinha tomado banho em seu apartamento? Vitória pediu a si mesma para não
criar expectativas. Mas não conseguiu evitar.
– Oi, bom dia – ele disse com um sorriso
e começou a se vestir.
Você não
pode ficar mais um pouco?, ela quis perguntar, mas preferiu
omitir. Então se levantou da cama e vestiu o baby-doll que estava jogado no
chão.
– Você pode ficar pra o café, se quiser –
sugeriu.
Danilo meneou a cabeça de um lado pra
outro.
– Obrigado, mas não posso ficar.
Que ideia
idiota, disse pra si mesma. Claro que Danilo não
ficaria para o café da manhã. Homens como ele podem passar uma noite inteira
com uma mulher, mas quando o dia amanhece só pensam em ir embora. Você deveria estar acostumada com isso,
Vitória. Mas não era tão fácil assim. No fundo ela não queria se acostumar.
Desejava ser bem mais que uma diversão noturna.
Então o acompanhou até a porta e foi
surpreendida quando Danilo passou os braços ao redor dela, puxando-a para bem
perto dele e beijando sua boca de um jeito demorado e carinhoso.
Caramba! O
que você está fazendo comigo?, falou mentalmente ao vê-lo ir embora. Estaria ele nutrindo
sentimentos por ela? Vitória não tinha como saber. Talvez seria mais fácil se
Danilo fosse um completo canalha, daqueles que decepcionam logo no primeiro
encontro. Mas infelizmente ele não era assim. Talez fosse até pior.
Depois daquela manhã, eles não se viram mais.
Quando Vitória começou a imaginar que
tivesse sido totalmente esquecida por Danilo, ele envia uma mensagem falando
sobre a mãe hospitalizada. Vitória não conhecia Juliana, mas sabia dos seus
problemas de saúde. Danilo já tinha falado sobre a mãe outras vezes, sempre de
um jeito preocupado e temeroso.
Por isso ela queria tanto estar com ele.
Vitória olhou no relógio. 2h15. Pensou se
seria estupidez ir ao hospital. Certamente não poderia entrar para falar com
Danilo, assim como ele não deixaria a mãe para falar com ela. Mas e se ele
desejasse vê-la? E se ela pudesse fazer alguma coisa para deixá-lo melhor? Ela
sabia que não conseguiria dormir. Não parava de pensar nele. Talvez não fosse
uma ideia tão estúpida.
Ah! Que mal
tem?
Então trocou de roupa, deixou um bilhete para seu irmão Vinícius e
saiu de casa.
*****
Maria Luíza e Benício não acreditavam no que tinham feito.
– Somos os piores amigos do mundo, Malu.
– Acho que sim.
Enquanto Danilo estava no hospital, os dois estavam fazendo sexo.
Sentiam-se culpados, embora soubessem que não tinham planejado aquilo. Nenhum
deles esperava tamanha excitação. Foi um desejo repentino e avassalador, porém
momentâneo. Agora os dois estavam nus e suados, deitados lado a lado, pensando
sobre esse acontecimento impetuoso.
Caramba, eu gozei!, Benício exclamou mentalmente. Maria Luíza era a sua terceira namorada,
mas a primeira com quem tinha transado.
Eu fiz sexo com uma garota! Sentiu
vontade de rir, mas conteve-se por causa de Malu.
A vida toda ele tinha se interessado
somente por garotos. Considerava impossível qualquer possibilidade de uma
experiência heterossexual verdadeira. Mas o que aconteceu com Maria Luíza tinha
sido especial. Por mais efêmero que tenha sido aquele momento, ele guardaria
pra sempre.
– Eu não esperava por isso – disse
Benício, quebrando o silêncio que tinha ficado entre eles.
– Nossa, nem eu!
Era estranho o que tinha acontecido. Muito estranho mesmo!, pensou Malu.
Teoricamente Benício ainda era seu namorado, mas ela estava se sentindo
incestuosa, como se tivesse transado com o próprio irmão. Definitivamente ela o
amava de maneira fraternal. O sexo seria eternamente e apenas uma lembrança.
Além disso, Benício era gay. Obviamente
que ele não seria o primeiro homossexual a ficar com uma mulher, mas... e
depois? Como ficaria a cabeça de Benício?
Ela não queria ser a responsável por fazê-lo perder mais tempo,
insistindo em algo que poderia jamais acontecer.
– Será que você é bissexual? – Malu
perguntou de maneira casual, tentando não demonstrar que estava preocupada.
– Acho que não.
– Então você ainda quer ficar com
garotos?
– Sim, mas só daqui a dez minutos.
Os dois riram.
Maria Luíza suspirou aliviada. Agora
estava mais tranquila.
Benício a beijou no rosto e depois pegou
uma toalha que estava ao lado da cama. Levantou-se e partiu em direção ao
banheiro. Mas antes de deixar o quarto, pegou o celular que estava no bolso da
calça jeans.
2h17.
Nenhuma mensagem de Danilo.
Transar com uma garota tinha confirmado
sua orientação sexual. Ele realmente gostava de rapazes. Desejava o cheiro, o
toque e o gosto masculino. Assumir-se gay não seria tão rápido nem fácil, mas
agora ele estava decidido. Mentiras nunca
mais! Porque o armário é escuro e solitário. Somente do lado de fora, no
mundo real, é possível se sentir completo.
Seu coração ainda preferia Danilo, mas se
não fosse com ele, Benício queria estar preparado para ser feliz com outro
homem. E seria feliz de verdade.
Então ficou debaixo do chuveiro, sentindo
a água morna renovar as forças, e imaginando se um dia poderia declarar seu
amor para o melhor amigo.
Ah, Danilo,
será que algum dia você vai saber?
Depois do banho, quando voltou para o
quarto, Benício encontrou Maria Luíza com o rosto enterrado nas próprias mãos.
Ela estava aos prantos.
Quando viu o amigo se aproximar, Malu
levantou da cama e se jogou nos braços dele. Tentou falar, mas não conseguiu
conter o choro.
Benício não precisou de explicação. Já
sabia o que tinha acontecido.
Ah, não, tia
Juliana!
Então ele também chorou.
♥♥♥
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