O velório de Juliana reuniu familiares e
muitos amigos. Danilo e Alan não imaginavam que a mãe fosse querida por tantas
pessoas. Mas se pudessem escolher, gostariam de estar ali sozinhos, sem dezenas
de olhares decepcionados e censuradores sobre eles. Sentiam-se envergonhados.
Desejavam acordar de um pesadelo. Nada do que estava acontecendo poderia ser
realidade.
Os dois estavam sentados em lugares
opostos, separados pelo grande objeto de madeira.
Mas não era apenas a esquife que estava entre eles. Havia principalmente um
passado mal resolvido, cheio de ódio e ressentimento.
Não choravam. Não falavam. Permaneciam
inertes, como se esperassem atentos o momento em que Juliana voltaria a viver.
E se ela vivesse, o que iria acontecer? Certamente estaria desapontada. Perdão, mamãe, os irmãos pediam em
silêncio.
Dez horas antes, enquanto todos ainda
tentavam se recuperar do choque causado pela notícia, Danilo e Alan
protagonizaram uma cena violenta no estacionamento do hospital.
– Isso é culpa sua, seu imbecil! – gritou
Danilo, desferindo um soco no irmão, que mal tinha saído do carro.
Alan tombou sobre a porta do veículo e
levou a mão ao nariz. Um filete de sangue escorreu até os seus lábios.
– Vai se foder, Danilo!
– Vai se foder você, porra! Você fez isso
com a nossa mãe.
– Isso não é verdade – Alan esbravejou e
depois repetiu: – Isso não é verdade!
Agora os dois choravam. Suas pernas
vacilavam como se fossem cair.
– Você sabe que não é verdade, Danilo.
Alan tentou abraçar o irmão, mas ele o
empurrou com as duas mãos.
– Por que você tá fazendo isso? –
perguntou magoado.
– Porque você é um babaca!
Alan deu a volta no carro, abriu a porta
do passageiro e pegou um objeto que estava no porta-luvas. Então estendeu o
braço, entregando para Danilo uma pequena caixa azul com detalhes amarelos.
– Isso estava com a nossa mãe quando eu a
encontrei...
Sem conseguir terminar a frase, Alan
deixou o irmão e entrou no hospital, passando pelos familiares e curiosos que
os observavam assustados. Sua camisa estava suja de sangue e sentia o nariz
doer.
Danilo ficou no estacionamento, segurando
o presente que havia rejeitado há alguns dias. Então rasgou a embalagem e abriu
a caixa.
Depois disso, Alan passou a ignorá-lo
completamente.
Se não fosse pela companhia de Vitória,
talvez Danilo estivesse sozinho durante o velório, que durou um pouco mais de
oito horas. A garota não o deixou por um instante sequer. Detestara a sua
atitude, mas não queria ser mais uma a criticá-lo. Não compreendia a raiva dele
e torcia para que as coisas se acalmassem com o tempo, mas respeitava o seu
sentimento. Se pudesse, queria dizer que o amava. Mas não era o momento certo.
Só de estar ao lado de Danilo, com a mão colada na sua, bastava para que ela se
sentisse mais feliz.
Maria Luíza tentava se dividir entre os
dois irmãos. Sentia-se consternada com o que tinha acontecido entre eles, mas
sua tristeza maior era por Alan. Sabia que ele estava absolutamente aflito e
carregando uma culpa antiga, que talvez não fizesse mais sentido. Por isso
esteve com ele na maior parte do tempo. Ele recostou a cabeça na dela, enquanto
o braço de Malu envolvia o seu.
Benício não sabia o que fazer. Detestava
atos fúnebres. Recusava-se a ver o corpo de Juliana, pois queria sentir saudade
dela com vida e sorridente. Amava a mãe de Danilo e ainda não acreditava que
ela tinha ido embora. Depois de tantas idas e vindas ao hospital, ele estava
confiante de que Juliana voltaria pra casa mais uma vez. Ela era tudo para os
dois filhos. Agora Alan e seu amigo estavam órfãos. De alguma maneira, Benício
também sentia que tinha perdido sua mãe.
– Eu também não chego perto do caixão –
disse Vinícius, irmão mais novo de Vitória. Ele e Benício eram formandos de
Arquitetura e estudavam na mesma sala.
Eles estavam sentados numa sala menor,
onde havia uma garrafa térmica com café e um pote de vidro com bolachas
salgadas. Geralmente as pessoas se encontravam neste lugar para conversar
assuntos aleatórios, fugir da tristeza dos outros compartimentos ou
simplesmente recarregar as energias. Os dois só queriam que o tempo corresse.
– Não consigo me despedir – disse
Benício, enxugando os olhos com a própria camisa.
Vinícius passou o braço sobre os ombros
dele. Gostava do colega de turma. Os dois eram parceiros de trabalhos
acadêmicos e também estagiavam na mesma construtora. Se um dia tivesse coragem
para falar, Benício saberia o quanto ele o admirava e gostava da sua
companhia.
– Talvez não seja mesmo necessário – ele
falou, tentando confortar o amigo.
– Obrigado por estar aqui comigo, Vini.
Então Vinícius o abraçou mais forte.
Sons agitados e uma movimentação mais
intensa no lado de fora da sala chamaram a atenção dos dois, que rapidamente
saíram para conferir o que estava acontecendo.
O momento
mais difícil, pensou
Benício, vendo o caixão saindo da funerária.
Todas as pessoas foram saindo, exceto
Danilo, que continuava sentado no mesmo lugar, como se não pudesse se mover.
Seus olhos estavam distantes.
Vitória encarou Maria Luíza com olhos
assustados, dizendo em silêncio que não sabia como agir. Suas tentativas de
chamar a atenção de Danilo tinham sido inúteis. Até o rosto dele continuava
inalterado, com a mesma expressão oprimida.
– Você pode ir na frente com o Vinícius –
disse Malu gentilmente. – A gente se encontra daqui a pouco.
Vitória concordou. Mas antes de sair,
ficou bem na frente de Danilo e dobrou os joelhos para olhá-lo diretamente nos
olhos. Ela pousou as duas mãos sobre o rosto dele e inclinou a cabeça para
beijá-lo nos lábios. Foi um beijo simples e rápido. Cuidadoso.
Vinícius, antes de sair na companhia da
irmã, despediu-se de Benício com um
aperto de mão tímido e um sorriso confidente. Mas Benício o surpreendeu com um
abraço caloroso, realmente agradecido. Isso bastou para que Vinícius sentisse o
coração acelerar. Sentiu-se imensamente feliz. Então passou pela porta de
saída.
Maria Luíza e Benício agora estavam a sós
com Danilo.
Sentaram ao lado dele, abraçando-o com
ternura, mas Danilo parecia não notá-los. Os lábios dele tremiam e suas mãos
estavam frias, quase geladas.
Porém, continuava imóvel e inexpressivo,
por maior que fosse sua dor.
– Estamos com você sempre! – disse Malu,
beijando-o no rosto.
Agora somos
a sua família, pensou
Benício.
Por alguns minutos os três ouviram apenas
as próprias respirações.
Próximos. Confidentes. Irmãos.
Então as lágrimas começaram a escorrer
pelo rosto de Danilo, de um jeito rápido e sôfrego. De repente ele estava aos
prantos, chorando feito criança.
– Não consigo ficar... sem a minha mãe –
dizia repetidamente.
Por mais que tentassem, Benício e Maria
Luíza não conseguiam conter as lágrimas. Agarraram-se a ele, segurando-o com
força e acariciando suas costas e braços. Choraram em silêncio. Palavras não
eram necessárias. Eles estavam juntos. Isso bastava.
– Eu não consigo ver minha mãe ir embora.
Não consigo, não consigo! Ai, meu Deus... Eu juro que não consigo.
Eles o abraçavam ainda mais forte.
Estamos
aqui, Danilo, era o que eles estavam dizendo. Amamos você e nunca vamos deixá-lo sozinho.
Benício não estava acostumado a vê-lo tão
fragilizado. Danilo era determinado e resistente na maior parte do tempo, mas
agora tinha se permitido sofrer como todo mundo. Por isso desejou encontrar uma
maneira de protegê-lo. Se pudesse verdadeiramente dividir a sua dor, certamente
faria isso por ele.
Mas o choro durou tempo suficiente para
aliviar um pouco a dor.
Alguns minutos depois, aproximou-se o
responsável pela organização do funeral e avisou que o cortejo já estava
saindo. Então os três deixaram o local e seguiram rumo ao cemitério,
acompanhando os demais veículos.
Era um longo percurso.
Tempo demais
para esperar, pensou
Maria Luíza. Era como se a dor aumentasse a cada minuto dentro do carro.
– Eu fiz tudo errado – disse Danilo,
inesperadamente.
Benício olhou pelo retrovisor e percebeu
que Maria Luíza também não sabia do que ele estava falando. Talvez se sentisse
culpado por ter agredido o irmão. De qualquer maneira, era tarde para lamentar.
– Eu preciso pedir perdão do Alan.
– Você estava descontrolado, Danilo. Não
pensa nisso agora.
– Não, não é somente por isso.
Do que ele
está falando?, seus
amigos pensaram.
– Eu preciso pedir perdão porque eu
também tenho culpa.
♥♥♥
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