sábado, 17 de janeiro de 2015

Três Loucos Amores - Capítulo 6 - "Irmãos"



O velório de Juliana reuniu familiares e muitos amigos. Danilo e Alan não imaginavam que a mãe fosse querida por tantas pessoas. Mas se pudessem escolher, gostariam de estar ali sozinhos, sem dezenas de olhares decepcionados e censuradores sobre eles. Sentiam-se envergonhados. Desejavam acordar de um pesadelo. Nada do que estava acontecendo poderia ser realidade.
Os dois estavam sentados em lugares opostos, separados pelo grande objeto de madeira. Mas não era apenas a esquife que estava entre eles. Havia principalmente um passado mal resolvido, cheio de ódio e ressentimento.
Não choravam. Não falavam. Permaneciam inertes, como se esperassem atentos o momento em que Juliana voltaria a viver. E se ela vivesse, o que iria acontecer? Certamente estaria desapontada. Perdão, mamãe, os irmãos pediam em silêncio. 
Dez horas antes, enquanto todos ainda tentavam se recuperar do choque causado pela notícia, Danilo e Alan protagonizaram uma cena violenta no estacionamento do hospital.
– Isso é culpa sua, seu imbecil! ­– gritou Danilo, desferindo um soco no irmão, que mal tinha saído do carro.
Alan tombou sobre a porta do veículo e levou a mão ao nariz. Um filete de sangue escorreu até os seus lábios.
– Vai se foder, Danilo!
– Vai se foder você, porra! Você fez isso com a nossa mãe.
– Isso não é verdade – Alan esbravejou e depois repetiu: – Isso não é verdade!
Agora os dois choravam. Suas pernas vacilavam como se fossem cair.
– Você sabe que não é verdade, Danilo.
Alan tentou abraçar o irmão, mas ele o empurrou com as duas mãos.
– Por que você tá fazendo isso? – perguntou magoado.
– Porque você é um babaca!
Alan deu a volta no carro, abriu a porta do passageiro e pegou um objeto que estava no porta-luvas. Então estendeu o braço, entregando para Danilo uma pequena caixa azul com detalhes amarelos.
– Isso estava com a nossa mãe quando eu a encontrei...
Sem conseguir terminar a frase, Alan deixou o irmão e entrou no hospital, passando pelos familiares e curiosos que os observavam assustados. Sua camisa estava suja de sangue e sentia o nariz doer.
Danilo ficou no estacionamento, segurando o presente que havia rejeitado há alguns dias. Então rasgou a embalagem e abriu a caixa.
Depois disso, Alan passou a ignorá-lo completamente.
Se não fosse pela companhia de Vitória, talvez Danilo estivesse sozinho durante o velório, que durou um pouco mais de oito horas. A garota não o deixou por um instante sequer. Detestara a sua atitude, mas não queria ser mais uma a criticá-lo. Não compreendia a raiva dele e torcia para que as coisas se acalmassem com o tempo, mas respeitava o seu sentimento. Se pudesse, queria dizer que o amava. Mas não era o momento certo. Só de estar ao lado de Danilo, com a mão colada na sua, bastava para que ela se sentisse mais feliz.
Maria Luíza tentava se dividir entre os dois irmãos. Sentia-se consternada com o que tinha acontecido entre eles, mas sua tristeza maior era por Alan. Sabia que ele estava absolutamente aflito e carregando uma culpa antiga, que talvez não fizesse mais sentido. Por isso esteve com ele na maior parte do tempo. Ele recostou a cabeça na dela, enquanto o braço de Malu envolvia o seu.
Benício não sabia o que fazer. Detestava atos fúnebres. Recusava-se a ver o corpo de Juliana, pois queria sentir saudade dela com vida e sorridente. Amava a mãe de Danilo e ainda não acreditava que ela tinha ido embora. Depois de tantas idas e vindas ao hospital, ele estava confiante de que Juliana voltaria pra casa mais uma vez. Ela era tudo para os dois filhos. Agora Alan e seu amigo estavam órfãos. De alguma maneira, Benício também sentia que tinha perdido sua mãe. 
– Eu também não chego perto do caixão – disse Vinícius, irmão mais novo de Vitória. Ele e Benício eram formandos de Arquitetura e estudavam na mesma sala.
Eles estavam sentados numa sala menor, onde havia uma garrafa térmica com café e um pote de vidro com bolachas salgadas. Geralmente as pessoas se encontravam neste lugar para conversar assuntos aleatórios, fugir da tristeza dos outros compartimentos ou simplesmente recarregar as energias. Os dois só queriam que o tempo corresse.
– Não consigo me despedir – disse Benício, enxugando os olhos com a própria camisa.
Vinícius passou o braço sobre os ombros dele. Gostava do colega de turma. Os dois eram parceiros de trabalhos acadêmicos e também estagiavam na mesma construtora. Se um dia tivesse coragem para falar, Benício saberia o quanto ele o admirava e gostava da sua companhia. 
– Talvez não seja mesmo necessário – ele falou, tentando confortar o amigo.
– Obrigado por estar aqui comigo, Vini.
Então Vinícius o abraçou mais forte.
Sons agitados e uma movimentação mais intensa no lado de fora da sala chamaram a atenção dos dois, que rapidamente saíram para conferir o que estava acontecendo.
O momento mais difícil, pensou Benício, vendo o caixão saindo da funerária.
Todas as pessoas foram saindo, exceto Danilo, que continuava sentado no mesmo lugar, como se não pudesse se mover. Seus olhos estavam distantes.
Vitória encarou Maria Luíza com olhos assustados, dizendo em silêncio que não sabia como agir. Suas tentativas de chamar a atenção de Danilo tinham sido inúteis. Até o rosto dele continuava inalterado, com a mesma expressão oprimida.
– Você pode ir na frente com o Vinícius – disse Malu gentilmente. – A gente se encontra daqui a pouco.
Vitória concordou. Mas antes de sair, ficou bem na frente de Danilo e dobrou os joelhos para olhá-lo diretamente nos olhos. Ela pousou as duas mãos sobre o rosto dele e inclinou a cabeça para beijá-lo nos lábios. Foi um beijo simples e rápido. Cuidadoso.
Vinícius, antes de sair na companhia da irmã, despediu-se de Benício com  um aperto de mão tímido e um sorriso confidente. Mas Benício o surpreendeu com um abraço caloroso, realmente agradecido. Isso bastou para que Vinícius sentisse o coração acelerar. Sentiu-se imensamente feliz. Então passou pela porta de saída.
Maria Luíza e Benício agora estavam a sós com Danilo.
Sentaram ao lado dele, abraçando-o com ternura, mas Danilo parecia não notá-los. Os lábios dele tremiam e suas mãos estavam frias, quase geladas.
Porém, continuava imóvel e inexpressivo, por maior que fosse sua dor.
– Estamos com você sempre! – disse Malu, beijando-o no rosto.
Agora somos a sua família, pensou Benício.
Por alguns minutos os três ouviram apenas as próprias respirações.
Próximos. Confidentes. Irmãos.
Então as lágrimas começaram a escorrer pelo rosto de Danilo, de um jeito rápido e sôfrego. De repente ele estava aos prantos, chorando feito criança.
– Não consigo ficar... sem a minha mãe – dizia repetidamente.
Por mais que tentassem, Benício e Maria Luíza não conseguiam conter as lágrimas. Agarraram-se a ele, segurando-o com força e acariciando suas costas e braços. Choraram em silêncio. Palavras não eram necessárias. Eles estavam juntos. Isso bastava.
– Eu não consigo ver minha mãe ir embora. Não consigo, não consigo! Ai, meu Deus... Eu juro que não consigo.
Eles o abraçavam ainda mais forte.
Estamos aqui, Danilo, era o que eles estavam dizendo. Amamos você e nunca vamos deixá-lo sozinho.
Benício não estava acostumado a vê-lo tão fragilizado. Danilo era determinado e resistente na maior parte do tempo, mas agora tinha se permitido sofrer como todo mundo. Por isso desejou encontrar uma maneira de protegê-lo. Se pudesse verdadeiramente dividir a sua dor, certamente faria isso por ele.
Mas o choro durou tempo suficiente para aliviar um pouco a dor.
Alguns minutos depois, aproximou-se o responsável pela organização do funeral e avisou que o cortejo já estava saindo. Então os três deixaram o local e seguiram rumo ao cemitério, acompanhando os demais veículos.
Era um longo percurso.
Tempo demais para esperar, pensou Maria Luíza. Era como se a dor aumentasse a cada minuto dentro do carro. 
– Eu fiz tudo errado – disse Danilo, inesperadamente.
Benício olhou pelo retrovisor e percebeu que Maria Luíza também não sabia do que ele estava falando. Talvez se sentisse culpado por ter agredido o irmão. De qualquer maneira, era tarde para lamentar.
– Eu preciso pedir perdão do Alan.
– Você estava descontrolado, Danilo. Não pensa nisso agora.
– Não, não é somente por isso.
Do que ele está falando?, seus amigos pensaram.
– Eu preciso pedir perdão porque eu também tenho culpa.


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