– Você promete que vai esquecer essa
história, Danilo?
– Tudo bem, mãe, eu prometo.
Mas a verdade é que ele não tinha
esquecido. Agora Juliana estava morta e ele não poderia dizer a ela que estava
arrependido. Não poderia refazer a sua promessa. Não poderia voltar atrás,
mudar as suas atitudes e evitar a dor que naquele momento estava sentindo.
No dia anterior, pouco tempo antes de
sofrer um AVC, Juliana estava em casa sozinha. Alan deveria estar na faculdade
e Danilo certamente estaria na casa de Heloísa, mãe de Malu. Como fazia todas
as semanas, Juliana entrou no quarto dos filhos para guardar a roupa limpa. Mas
ao abrir o guarda-roupa de Alan, ela encontrou uma caixa de presente ainda
fechada.
Ela mesma tinha embalado aquela caixa. O
presente foi ideia sua. Então pegou o telefone e ligou para o filho, ansiosa
por uma explicação.
– Alan, por que o presente do Danilo
ainda está no meio das suas coisas?
Do outro da linha, Alan pareceu
hesitante.
– Eu
ainda não entreguei.
– Mas você disse que ele tinha gostado do
presente.
–
Posso ter me enganado, mãe.
– Ou você pode estar mentindo.
– Desculpa,
mãe – ele falou com pesar. – O Danilo
não aceitou.
Juliana desligou o telefone sentindo-se
desolada.
Seus filhos costumavam ser bons amigos,
mas tudo tinha mudado desde o seu primeiro infarto. Lembrou-se da promessa de
Danilo. Acreditava que ele havia perdoado o irmão. Mas ela estava enganada. Era
uma decepção terrível. Quase três anos tinham se passado e, assim como ela, sua
família parecia desvanecer aos poucos. Eu
fiz algo errado?, questionou-se aflita.
Ela quis rasgar a embalagem azul, mas
sentiu-se tonta e sentou sobre a cama de Alan. A pequena caixa caiu de suas
mãos e Juliana ouviu algo dentro dela se quebrar. Quando inclinou o corpo para
pegar o objeto, uma pontada no peito a fez levar uma das mãos ao coração. No
instante seguinte, tudo virou escuridão.
– Querido, está ficando tarde – disse
Vitória, preocupada com o horário. Em poucos minutos o cemitério estaria
fechado.
Danilo olhava fixamente para o nome de
Juliana inscrito na lápide.
Minha mãe
está aí em baixo, era tudo o
que ele conseguia pensar.
– Realmente precisamos ir, meninos – avisou
Maria Luíza, estendendo o braço para segurar a mão de Alan.
– Eu te amo, mãe – ele falou quase
sussurrando, antes de acompanhar Malu.
Benício estava ao lado de Vinícius e
também aguardava os dois irmãos. Apesar da aversão que tinha por funerais, ele
não poderia deixar seus amigos naquele momento. Além disso, tinha a estranha
sensação de estar vivendo um sonho muito ruim. A qualquer momento acordaria e
Juliana ainda estaria viva.
– O que eu vou fazer, Vitória? –
perguntou Danilo.
Então agarrou-se a ela e chorou em seu
ombro novamente.
– Essa dor vai passar, meu amor.
Ela tentou pensar em algo melhor pra
falar, mas não conseguiu.
Alan se aproximou e colocou a mão sobre o
ombro do irmão.
– Vem cá, mano, me dá um abraço – ele
pediu.
Quando Danilo ouviu a voz de Alan, não
pensou duas vezes antes de abraçá-lo. Como estava precisando ser abraçado por
ele! Sentia falta. Sentia muita falta. Não queria mais ficar do longe do irmão.
Alan segurou Danilo com toda força que
era capaz. Há anos ele esperava ter seu irmão mais velho de volta. Não estava
suportando mais viver distante dele. Não estava suportando todo o rancor que os
separava. Amava seu irmão. Precisava dele. Agora os dois eram tudo o que tinham
um pro outro.
– Perdão, Danilo! Perdão mesmo, meu
irmão.
– Eu também te peço perdão. Eu errei com
você, Alan. Desculpa, mano. Eu sentia tanto a sua falta...
Eu perdoo
você. Claro que eu perdoo você!
Quem os observava não conseguiu conter a
emoção. Malu, Benício, Vitória e Vinícius choravam de alegria. Finalmente!, eles comemoravam comovidos.
Abraçado ao irmão, Danilo olhou para o
nome na lápide mais uma vez.
– Nós te amamos, mãe. Perdão... E
obrigado por tudo.
Enxugaram as lágrimas e juntaram-se aos
demais.
Quando chegaram ao estacionamento, Danilo
abraçou Alan mais uma vez.
– Te amo, mano – ele disse, beijando o
irmão caçula na face.
– Eu também te amo.
Os dois sorriram.
Alan beijou as duas mãos de Maria Luíza e
depois entrou no carro. Desejou falar o quanto a amava, mas optou por adiar
esse momento. Temeu parecer oportunista. Mas até quando conseguiria guardar esses
sentimentos?
Antes de partir, Danilo segurou Vitória
pela cintura e depois passou a mão em seus cabelos. Sentia-se grato pela
companhia dela.
– Não sei como te agradecer. Você foi
incrível hoje.
Ela o beijou na boca. Esse agradecimento
bastava.
Então se despediram todos e seguiram seus
caminhos.
No carro, com Benício e Malu, Danilo
pegou novamente a caixinha azul.
De dentro dela, tirou o porta-retratos cujo
vidro estava quebrado e observou a foto de sua mãe ao lado dos dois filhos
ainda crianças. No fundo, havia muitas árvores e alguns animais ao longe.
Danilo conhecia muito bem aquele lugar. Lembrava-se também daquele dia. Era uma
lembrança inesquecível. Sentiu saudade. Sentiu-se feliz. Ainda vamos voltar lá, prometeu a si mesmo.
Quando estavam quase chegando na casa de
Maria Luíza, o celular dela fez um barulhinho, despertando a atenção dos outros
dois.
Depois de tirar aparelho da bolsa, ela
olhou para a pequena tela e arregalou os olhos, completamente surpresa.
"Sei
que não é o momento, mas... Eu amo você"
Malu leu várias vezes a mesma mensagem.
Mas não sabia o que pensar.
♥♥♥
Nenhum comentário:
Postar um comentário