O Alan disse
que ama você?
Danilo já tinha feito essa pergunta pelo
menos três vezes, mas agora estava perguntando pra si mesmo pra tentar se
convencer. Não sabia se era o cansaço ou se realmente não estava entendendo bem
as coisas.
– E você gosta dele?
– Gosto, mas não desse jeito. Quer
dizer... – Malu também estava confusa e exausta. Só queria se jogar na cama. –
Não sei, Dan. Não sei o que pensar.
– Não estou entendendo, gente. E vocês
dois? E o namoro?
Danilo encarou Benício. Precisava de uma
explicação.
– Não estamos mais namorando – ele
respondeu um pouco hesitante, mas depois completou: – Eu sou gay.
– Você é gay?
– Você não desconfiava?
Claro que Danilo desconfiava. Mas por que
ele tinha assumido isso justamente naquele dia? O que tinha acontecido nas
últimas horas?
Sentou-se no colchão e começou a pensar
em Maria Luíza com seu irmão. Ele sabia que Alan a amava quando eram
adolescentes, mas não imaginava que o sentimento ainda estivesse vivo. E se os
dois começassem a namorar? Ele também amava Maria Luíza. Poderia conviver com
isso?
– O Alan sempre gostou de você – ele
disse, pensando em voz alta.
– Deixa isso pra lá, Dan – pediu Malu e
depois sentou ao lado dele.
– Você quer deixar pra lá?
Ela ainda não tinha pensado nas
possibilidades, mas não poderia negar que a mensagem de Alan a deixara feliz.
Poxa, quem não quer ser amado?
O silêncio de Maria Luíza foi o bastante
para Danilo.
Percebeu que não poderia colocar seus
sentimentos entre eles. Danilo era seu irmão. Malu era sua melhor amiga. Se
eles quisessem ficar juntos e fossem felizes com essa decisão, sua única opção
era ficar feliz também.
– Eu só não quero te magoar – ela
finalmente respondeu.
– Não se preocupe com isso. Eu perdooei
meu irmão. Ele também me perdoou. Você não vai me megoar se quiser namorá-lo.
Ele não deveria assumir que sentia por
ela algo mais forte que amizade. Realmente estava na hora de seguir em frente.
Malu era a garota com quem tinha passado a vida inteira. Só isso já bastava.
– Agora assume que gosta do Alan! –
brincou Benício, sentando-se também ao lado de Maria Luíza.
– Não vou assumir coisa nenhuma. Agora eu
só quero dormir.
– Nossa, eu também.
– Será que nós três ainda cabemos nessa
cama?
Eles deitaram de costas sobre o colchão e
passaram algum tempo olhando para o teto. Uma lembrança engraçada fez Maria
Luíza gargalhar.
– O que foi? – perguntou Benício.
– Nós já quebramos uma cama, lembram?
Os dois rapazes também riram
demoradamente.
Danilo se esqueceu de tudo naquele
momento. O hospital, o velório, o nome de Juliana inscrito na lápide... Era
como se, de repente, ele pudesse fugir da realidade e se sentir feliz
novamente. De um jeito sem explicação, imaginou que talvez sua mão também
estivesse sorrindo naquele mesmo instante.
Entre os lençóis, os três ficaram
abraçados, alegres por estarem juntos.
Sentiam saudade dessa cumplicidade.
Então, um segundo antes de pegar no sono,
Danilo decidiu desfazer uma dúvida que estava guardada há anos.
– Agora você vai me dizer o nome do cara,
Benício?
– Que cara?
– Por quem você era apaixonado.
Benício pensou se deveria inventar uma
mentira qualquer. Mas tinha decidido que deixaria as mentiras no passado, então
respondeu:
– Era por você.
Danilo deu uma risadinha presunçosa e
depois perguntou:
– E você ainda sente o mesmo?
Em outro momento, Benício responderia que
sim imediatamente. Mas depois dos últimos acontecimentos, percebeu que deveria
ir com mais calma.
– Eu não sei, Dan.
– Sabe sim! – disse Maria Luíza,
intrometendo-se de propósito. Também estava curiosa para saber onde tudo aquilo
ia chegar.
– Eu não sei, mesmo! – retrucou Benício.
Então Danilo jogou-se sobre Malu, que
estava deitada entre eles, e beijou Benício nos lábios. Ele também queria
experimentar essa sensação. Foi um beijo gostoso e carinhoso, sem pressa.
Maria Luíza estava chocada e ao mesmo
tempo empolgada, quase soltando um gritinho de animação.
– Pronto, Ben! – disse Danilo. – Agora
você já sabe.
Benício não conseguiu falar e quase foi
incapaz de organizar os próprios pensamentos. Que atitude maluca tinha sido
aquela? Estava perplexo e estranhamento confuso. Deveria estar saltando de
alegria, mas sinceramente não se sentia tão empolgado. O beijo tinha sido
ótimo. Danilo tinha lábios delicados, como sempre tinha imaginado. Ficou na
dúvida se pulava sobre ele ou saia correndo do quarto.
Puta merda.
E agora?
♥♥♥
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