sábado, 17 de janeiro de 2015

Três Loucos Amores - Capítulo 10 - "Completos"



Maria Luíza reconheceu o lugar assim que chegou. Há muitos anos, quando ainda era uma menina que andava por aí só de calcinha, aqueles campos bem verdes tinham sido seu lugar preferido.
Benício também estava nostálgico e deslumbrado.  A paisagem continuava exuberante e agora parecia ainda mais cinematográfica. O sol estava quase se pondo e no céu havia uma combinação de cores espetacular. Ao final do campo, encontrava-se um rio de águas bem escuras e frias. Quantas vezes brincamos nesse lugar, pensou Benício, com os olhos marejados. Eram memórias maravilhosas.
Quando Danilo encontrou a grande árvore, cheia de galhos longos e fortes, onde costumava passar horas comendo as frutas dos cajueiros, sentou-se debaixo dela. Por mais inacreditável que pudesse parecer, as raízes da árvore formavam três perfeitos lugares. Quando criança, sua mãe Juliana dizia que Deus tinha plantado aquela árvore especialmente para eles.
– Minha mãe amava este sítio – ele disse
Todos nós amávamos, pensou Malu. 
Muitos anos tinham se passado desde a última vez que estiveram ali.
Algumas coisas estavam diferentes e não se viam mais os bichos que antes passeavam pelo pasto. Mesmo assim foi como voltar no tempo.
Os três foram tomados por uma sensação boa, repleta de lembranças felizes.
Por isso não conseguiram conter a emoção.
– Vou sentir muita saudade dela... – comentou com serenidade, imaginando a mãe sentada debaixo daquelas árvores, conversando com Heloísa por horas e horas.
Danilo recostou-se sobre o tronco da árvore e, olhando pra cima, encontrou o galho que ele havia quebrado enquanto tentava se esconder, muito tempo atrás. De repente as lágrimas saudosas se transformaram em risos.
– O que foi, menino? – perguntou Malu, que também já estava rindo antes mesmo de entender o motivo da graça.
Danilo apontou pra cima. Ela e Benício inclinaram a cabeça para trás e também reconheceram o galho quebrado.
Então os três finalmente riram de verdade, como se fossem crianças de novo.
Quando cansaram de rir, Maria Luíza se levantou e estendeu a mão, pedindo que os dois amigos a acompanhassem.
– Será que nossas palavras ainda estão lá?
Eles caminharam até chegar às margens do rio, onde havia uma enorme prancha de madeira, que era usada como trampolim sempre que fingiam ser nadadores.
Elas ainda estão aqui!, comemorou Malu, surpresa.
De joelhos sobre a prancha, eles começaram a ler as três palavras que haviam escrito há quase doze anos. Cada um deles tinha escolhido algo que gostasse para deixar marcado na madeira "por toda eternidade" – expressão que Malu tinha usado na época.
Hello Kitty. Britney. Dragon Ball Z.
Essas foram as palavras encontradas.
– Britney? Você já era gay nessa época, Ben! – disse Danilo zombeteiro.
– Que engraçado! Como se você não escutasse Beyonce – revidou Benício.
Danilo riu e admitiu que estava só implicando. Ele também gostava de música pop, embora tivesse vergonha de assumir.
– Você era viciado nesse desenho chato, Danilo – comentou Malu, que nunca tinha conseguido gostar do anime japonês, mesmo quando todas as crianças o adoravam.
– E você era tarada por essa boneca feiosa.
Maria Luíza suspirou pensativa e surpresa. Na verdade, todos eles ainda gostavam das mesmas coisas. Tinham amadurecido, ganhado novas experiências e certamente hoje suas perspectivas eram diferentes, mas... No fundo, ainda somos as mesmas crianças.
Muito tempo tinha se passado desde aquelas palavras.
Pensaram em quantas alegrias tinham experimentado durante esse tempo.
Seja sempre grato, pensou Danilo, como se pudesse ouvir sua mãe falar. Apesar da saudade, agora só conseguia agradecer por ter sido tão feliz.
O sol começou a desaparecer por completo, escondendo-se por detrás das árvores que, do outro lado do rio, também se perdiam no horizonte.
Mais um dia estava acabando. Quanta coisa tinha acontecido!
Eles jamais poderiam imaginar que voltariam àquele lugar. Perceberam que na vida tudo pode mudar. Nada é previsível como pensamos.
Cada escolha é preciosa, pensou Maria Luíza.
– Eu amo muito vocês – ela disse.
Benício segurou forte uma das mãos de Malu. Danilo segurou a outra, entrelaçando seus dedos aos dela. Nós também amamos você, disseram em silêncio. 
De mãos dadas, os três observavam a noite chegar.
Sentiam-se completos e felizes.
Não temiam a escuridão.

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