Maria Luíza reconheceu o lugar assim que
chegou. Há muitos anos, quando ainda era uma menina que andava por aí só de
calcinha, aqueles campos bem verdes tinham sido seu lugar preferido.
Benício também estava nostálgico e
deslumbrado. A paisagem continuava
exuberante e agora parecia ainda mais cinematográfica. O sol estava quase se
pondo e no céu havia uma combinação de cores espetacular. Ao final do campo,
encontrava-se um rio de águas bem escuras e frias. Quantas vezes brincamos nesse lugar, pensou Benício, com os olhos
marejados. Eram memórias
maravilhosas.
Quando Danilo encontrou a grande árvore,
cheia de galhos longos e fortes, onde costumava passar horas comendo as frutas
dos cajueiros, sentou-se debaixo dela. Por mais inacreditável que pudesse
parecer, as raízes da árvore formavam três perfeitos lugares. Quando criança,
sua mãe Juliana dizia que Deus tinha plantado aquela árvore especialmente para
eles.
– Minha mãe amava este sítio – ele disse
Todos nós
amávamos, pensou
Malu.
Muitos anos tinham se passado desde a
última vez que estiveram ali.
Algumas coisas estavam diferentes e não
se viam mais os bichos que antes passeavam pelo pasto. Mesmo assim foi como
voltar no tempo.
Os três foram tomados por uma sensação
boa, repleta de lembranças felizes.
Por isso não conseguiram conter a emoção.
– Vou sentir muita saudade dela... –
comentou com serenidade, imaginando a mãe sentada debaixo daquelas árvores,
conversando com Heloísa por horas e horas.
Danilo recostou-se sobre o tronco da
árvore e, olhando pra cima, encontrou o galho que ele havia quebrado enquanto
tentava se esconder, muito tempo atrás. De repente as lágrimas saudosas se
transformaram em risos.
– O que foi, menino? – perguntou Malu,
que também já estava rindo antes mesmo de entender o motivo da graça.
Danilo apontou pra cima. Ela e Benício
inclinaram a cabeça para trás e também reconheceram o galho quebrado.
Então os três finalmente riram de
verdade, como se fossem crianças de novo.
Quando cansaram de rir, Maria Luíza se
levantou e estendeu a mão, pedindo que os dois amigos a acompanhassem.
– Será que nossas palavras ainda estão
lá?
Eles caminharam até chegar às margens do
rio, onde havia uma enorme prancha de madeira, que era usada como trampolim
sempre que fingiam ser nadadores.
Elas ainda
estão aqui!, comemorou
Malu, surpresa.
De joelhos sobre a prancha, eles
começaram a ler as três palavras que haviam escrito há quase doze anos. Cada um
deles tinha escolhido algo que gostasse para deixar marcado na madeira "por toda eternidade" – expressão
que Malu tinha usado na época.
Hello Kitty. Britney. Dragon Ball Z.
Essas foram as palavras encontradas.
– Britney? Você já era gay nessa época,
Ben! – disse Danilo zombeteiro.
– Que engraçado! Como se você não
escutasse Beyonce – revidou Benício.
Danilo riu e admitiu que estava só
implicando. Ele também gostava de música pop, embora tivesse vergonha de
assumir.
– Você era viciado nesse desenho chato,
Danilo – comentou Malu, que nunca tinha conseguido gostar do anime japonês, mesmo quando todas as
crianças o adoravam.
– E você era tarada por essa boneca
feiosa.
Maria Luíza suspirou pensativa e
surpresa. Na verdade, todos eles ainda gostavam das mesmas coisas. Tinham
amadurecido, ganhado novas experiências e certamente hoje suas perspectivas
eram diferentes, mas... No fundo, ainda
somos as mesmas crianças.
Muito tempo tinha se passado desde
aquelas palavras.
Pensaram em quantas alegrias tinham
experimentado durante esse tempo.
Seja sempre
grato, pensou
Danilo, como se pudesse ouvir sua mãe falar. Apesar da saudade, agora só conseguia
agradecer por ter sido tão feliz.
O sol começou a desaparecer por completo,
escondendo-se por detrás das árvores que, do outro lado do rio, também se
perdiam no horizonte.
Mais um dia estava acabando. Quanta coisa
tinha acontecido!
Eles jamais poderiam imaginar que
voltariam àquele lugar. Perceberam que na vida tudo pode mudar. Nada é
previsível como pensamos.
Cada escolha
é preciosa, pensou
Maria Luíza.
– Eu amo muito vocês – ela disse.
Benício segurou forte uma das mãos de
Malu. Danilo segurou a outra, entrelaçando seus dedos aos dela. Nós também amamos você, disseram em
silêncio.
De mãos dadas, os três observavam a noite
chegar.
Sentiam-se completos e felizes.
Não temiam a escuridão.
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