Uma semana depois, cada coisa parecia ter
encontrado seu lugar.
Às 16h30, todos já estavam na igreja.
Juliana era conhecida por quase toda a comunidade e muito querida pelo
simpático padre, que realizava a missa sempre com lágrimas nos olhos.
– Sou Eu, Eu mesmo, aquele que apaga tuas
transgressões, por amor de mim, e que não se lembra mais dos teus erros e
pecados – disse o pároco, recitando o verso 25 do capítulo 43 do livro de
Jeremias.
Alan não era católico nem adepto a
qualquer outra religião, mas tinha aprendido muito sobre fé ao conviver com a
mãe Juliana. Instintivamente acreditava em Deus, embora não o chamasse dessa
maneira nem o conceituasse a partir da Bíblia. Quando ainda era um adolescente
de dezesseis anos, ele percebeu que a vida não fazia sentido sem
espiritualidade. Desde então simplesmente acredita em algo bom, que conecta as
pessoas e traz esperança ao mundo.
Não se
lembra mais dos teus erros e pecados, repetiu Benício mentalmente. Todo mundo deseja se sentir
perdoado de alguma maneira. Talvez nem todo mundo acredite em castigo divino,
mas no fundo todo mundo quer estar em paz. Ninguém consegue viver angustiado e
aflito, com a alma inquieta. É muito bom, independente de crenças e religião,
sentir-se sereno e confiante.
– Você está bem? – Vinícius sussurrou.
Benício enxugou os olhos e sorriu para o
amigo.
Ele estava ótimo. Nunca tinha imaginado
que assumir a verdadeira orientação sexual pudesse lhe fazer tão bem. Se
soubesse, certamente o teria feito antes. Era como se agora pudesse ver o mundo
de verdade, da mesma forma como os outros pareciam vê-lo pela primeira vez. As
mãos que o puxavam pra trás não existiam mais. Sua única preocupação eram os
avós e os pais, que estavam morando em outra cidade. Mas resolveu deixar isso
para depois. Por enquanto, estava aproveitando a maravilhosa sensação de estar
fora da caverna.
– Você está diferente, querido – disse
Heloísa a ele, antes da missa começar.
– Eu me sinto diferente, tia.
A nuvem de dúvidas que o acompanhava
tinha desaparecido. Agora Benício parecia mais forte e seguro. Heloísa
imaginava o motivo da sua mudança e estava feliz por vê-lo tão bem. Não fazia
diferença com quem Benício se relacionava, desde que ambos fossem felizes.
– Eu amo você. Eu amo todos vocês. Vocês
são meus filhos também – ela disse chorando, dando-lhe um abraço bem apertado.
Era como se o mundo inteiro estivesse de
braços abertos para ele, aceitando-o exatamente do seu jeito. Sentiu-se
abençoado e feliz.
Maria Luíza também se sentia em paz. Era
a única católica do grupo e amava ir a missa, hábito que tinha adquirido
através de sua mãe, Heloísa. Ela e Juliana tinham se conhecido muitos anos
atrás, quando os filhos ainda eram bebês. Quando olhou para os amigos sentados
ao seu lado, agradeceu a Deus por ter colocado todos eles em seu caminho.
Benício, Danilo e Alan já faziam parte da sua vida desde sempre. E se tudo
acontecesse como estava imaginando, Vitória e Vinícius seriam os mais novos
integrantes do grupo.
Danilo olhou no relógio. 17h15. O padre encerrou
a missa com a música Amar como Jesus amou,
a preferida de Juliana.
Sua mãe cantarolava essa canção o tempo
inteiro. Pensar nela dessa maneira o fez chorar de saudade, mas também de
alegria. Ela tinha sido uma mulher incansável e uma mãe espetacular. Abandonada
pelo marido quando estava grávida do primeiro filho, Juliana poderia ter escolhido
uma vida de amargura, mas seguiu a direção oposta. Era feliz e generosa. Danilo
a admirava e amava de todo coração.
Então ele abraçou Alan e depois os dois
seguiram para fora da igreja, acompanhados pelos seus amigos.
– Você vai fazer alguma coisa hoje a
noite? – ele perguntou a Vitória.
– Não sei. Vamos?
Danilo sorriu, convidou-a para jantar e
depois a abraçou.
Vitória estava no céu. A semana inteira
Danilo esteve presente, mostrando-se mais carinhoso e atencioso. E quando acordou
na manhã anterior, ela não estava sozinha, pois Danilo ainda dormia ao seu
lado. Beijaram-se depois que ele também acordou e tomaram café juntos.
Maria Luíza e Alan pareciam dois
adolescentes flertando pela primeira vez.
Ele a beijava um pouco tímido, mas estava
absolutamente feliz. Quando a pedisse em namoro, tinha quase certeza que ela
não recusaria. Talvez fizesse isso naquele mesmo dia, quando estivessem juntos
a noite. Sabia tudo sobre Malu. E ela o conhecia muito bem. Então não
precisavam esperar
Danilo entrou no carro e depois Malu
sentou no banco ao lado.
Vitória e Alan atravessaram a rua, pois
tinham estacionado do outro lado.
– Eu te ligo mais tarde, Vini – disse
Benício, abrindo a porta do carro.
Vinícius concordou e depois o beijou no rosto.
Pela primeira vez, Benício sentiu que
havia algo a mais entre eles. Se não estivesse imaginando coisa, talvez
gostasse da ideia.
– Quero levar vocês a um lugar – disse
Danilo, fazendo suspense.
– Qual lugar?
Ele não quis responder, mas parecia
feliz.
Malu e Benício trocaram olhares e
aceitaram o passeio.
Então os três seguiram em frente.
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