sábado, 17 de janeiro de 2015

Três Loucos Amores - Capítulo 9 - "Paz"



Uma semana depois, cada coisa parecia ter encontrado seu lugar.
Às 16h30, todos já estavam na igreja. Juliana era conhecida por quase toda a comunidade e muito querida pelo simpático padre, que realizava a missa sempre com lágrimas nos olhos.
– Sou Eu, Eu mesmo, aquele que apaga tuas transgressões, por amor de mim, e que não se lembra mais dos teus erros e pecados – disse o pároco, recitando o verso 25 do capítulo 43 do livro de Jeremias.
Alan não era católico nem adepto a qualquer outra religião, mas tinha aprendido muito sobre fé ao conviver com a mãe Juliana. Instintivamente acreditava em Deus, embora não o chamasse dessa maneira nem o conceituasse a partir da Bíblia. Quando ainda era um adolescente de dezesseis anos, ele percebeu que a vida não fazia sentido sem espiritualidade. Desde então simplesmente acredita em algo bom, que conecta as pessoas e traz esperança ao mundo.
Não se lembra mais dos teus erros e pecados, repetiu Benício mentalmente. Todo mundo deseja se sentir perdoado de alguma maneira. Talvez nem todo mundo acredite em castigo divino, mas no fundo todo mundo quer estar em paz. Ninguém consegue viver angustiado e aflito, com a alma inquieta. É muito bom, independente de crenças e religião, sentir-se sereno e confiante.
– Você está bem? – Vinícius sussurrou.
Benício enxugou os olhos e sorriu para o amigo.
Ele estava ótimo. Nunca tinha imaginado que assumir a verdadeira orientação sexual pudesse lhe fazer tão bem. Se soubesse, certamente o teria feito antes. Era como se agora pudesse ver o mundo de verdade, da mesma forma como os outros pareciam vê-lo pela primeira vez. As mãos que o puxavam pra trás não existiam mais. Sua única preocupação eram os avós e os pais, que estavam morando em outra cidade. Mas resolveu deixar isso para depois. Por enquanto, estava aproveitando a maravilhosa sensação de estar fora da caverna.
– Você está diferente, querido – disse Heloísa a ele, antes da missa começar.
– Eu me sinto diferente, tia.
A nuvem de dúvidas que o acompanhava tinha desaparecido. Agora Benício parecia mais forte e seguro. Heloísa imaginava o motivo da sua mudança e estava feliz por vê-lo tão bem. Não fazia diferença com quem Benício se relacionava, desde que ambos fossem felizes.
– Eu amo você. Eu amo todos vocês. Vocês são meus filhos também – ela disse chorando, dando-lhe um abraço bem apertado.
Era como se o mundo inteiro estivesse de braços abertos para ele, aceitando-o exatamente do seu jeito. Sentiu-se abençoado e feliz.
Maria Luíza também se sentia em paz. Era a única católica do grupo e amava ir a missa, hábito que tinha adquirido através de sua mãe, Heloísa. Ela e Juliana tinham se conhecido muitos anos atrás, quando os filhos ainda eram bebês. Quando olhou para os amigos sentados ao seu lado, agradeceu a Deus por ter colocado todos eles em seu caminho. Benício, Danilo e Alan já faziam parte da sua vida desde sempre. E se tudo acontecesse como estava imaginando, Vitória e Vinícius seriam os mais novos integrantes do grupo.
Danilo olhou no relógio. 17h15. O padre encerrou a missa com a música Amar como Jesus amou, a preferida de Juliana.
Sua mãe cantarolava essa canção o tempo inteiro. Pensar nela dessa maneira o fez chorar de saudade, mas também de alegria. Ela tinha sido uma mulher incansável e uma mãe espetacular. Abandonada pelo marido quando estava grávida do primeiro filho, Juliana poderia ter escolhido uma vida de amargura, mas seguiu a direção oposta. Era feliz e generosa. Danilo a admirava e amava de todo coração.
Então ele abraçou Alan e depois os dois seguiram para fora da igreja, acompanhados pelos seus amigos.
– Você vai fazer alguma coisa hoje a noite? – ele perguntou a Vitória.
– Não sei. Vamos?
Danilo sorriu, convidou-a para jantar e depois a abraçou.
Vitória estava no céu. A semana inteira Danilo esteve presente, mostrando-se mais carinhoso e atencioso. E quando acordou na manhã anterior, ela não estava sozinha, pois Danilo ainda dormia ao seu lado. Beijaram-se depois que ele também acordou e tomaram café juntos.
Maria Luíza e Alan pareciam dois adolescentes flertando pela primeira vez.
Ele a beijava um pouco tímido, mas estava absolutamente feliz. Quando a pedisse em namoro, tinha quase certeza que ela não recusaria. Talvez fizesse isso naquele mesmo dia, quando estivessem juntos a noite. Sabia tudo sobre Malu. E ela o conhecia muito bem. Então não precisavam esperar
Danilo entrou no carro e depois Malu sentou no banco ao lado.
Vitória e Alan atravessaram a rua, pois tinham estacionado do outro lado.
– Eu te ligo mais tarde, Vini – disse Benício, abrindo a porta do carro.
Vinícius concordou e depois o beijou no rosto.
Pela primeira vez, Benício sentiu que havia algo a mais entre eles. Se não estivesse imaginando coisa, talvez gostasse da ideia.
– Quero levar vocês a um lugar – disse Danilo, fazendo suspense.
– Qual lugar?
Ele não quis responder, mas parecia feliz.
Malu e Benício trocaram olhares e aceitaram o passeio.
Então os três seguiram em frente.

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