Eu sabia que Júlio estava me traindo com uma de suas alunas. Sabia
também que em algumas horas ele estaria com ela, divertindo-se como tinha feito
nos últimos três meses. Mas ele não esperava que eu soubesse de tudo.
Julgava-me ingênua o suficiente para não desconfiar de sua infidelidade. Júlio
estava absolutamente enganado, e saberia disso naquela noite.
Enquanto retocava o batom, examinei a minha imagem refletida no espelho
e tentei me sentir bonita, embora minhas emoções falassem o contrário. É
difícil estar confiante e segura após a descoberta de uma traição. Quando
descobrimos as mentiras de um homem, tudo nele se torna desconfiança e, durante
algum tempo, as nossas próprias verdades viram incertezas.
Meus cabelos estavam mais curtos e penteados pra trás com algumas
presilhas, deixando-me mais jovem e casual. Vestia uma blusa preta sem
detalhes, calça jeans simples e uma sandália de salto baixo. Optei por uma
maquiagem discreta, que destacasse meus olhos e lábios de maneira suave. Eu não
pretendia estar deslumbrante. Quanto mais sensual ou sofisticada eu estivesse,
mais longe eu estaria da minha realidade.
Por que algumas pessoas não conseguem ser
honestas?, perguntei-me em silêncio, analisando o anel em meu dedo. Quase não
pude conter a vontade de lançá-lo pela janela do apartamento, amargurada por
ter em minhas mãos o símbolo de uma aliança sem valor, um compromisso
desprezível e fugaz. Como eu estava decepcionada! Sentia-me desacreditada, como
se Júlio tivesse me roubado a fé. Assim como o anel em meu dedo, o amor, agora,
não passava de uma ilusão.
Quando ouvi o toque do meu celular, tirei o aparelho da bolsa e
reconheci o contato, embora o número não estivesse salvo na agenda.
– Tudo certo? – perguntei ao
atender.
– Sim, espero você lá – respondeu uma voz
feminina.
– Ok.
Olhei-me no espelho mais uma vez, peguei
a minha bolsa e deixei o apartamento. Enquanto dirigia tentei evitar todos os
pensamentos que pudessem me fragilizar. Eu não queria chorar na frente dele,
revelando facilmente toda a minha vulnerabilidade. Desejava fazer daquela noite
um momento marcante pra mim, pra ele e também pra outra.
Quando cheguei na casa dele, estacionei o
carro a uma distância segura, garantido que ele não poderia me ver. Júlio não
esperava que eu fosse aparecer de surpresa, pois acreditou que eu estivesse
viajando, participando de um congresso em outra cidade.
Antes de sair do carro, meu celular
vibrou e uma mensagem apareceu na tela:
"Saudade de você, amor"
Que detestável! Júlio era capaz de me
escrever enquanto estava com outra mulher. Talvez estivessem aos beijos no sofá
da sala ou, quem sabe, já estivessem no quarto. Eu significo tão pouco
assim? Foi impossível não me sentir humilhada.
Respirei fundo, abri a porta do carro e
atravessei a rua.
Depois de tocar a companhia, Júlio me
recebeu com olhos arregalados.
– Lívia?
– Oi, amor – falei com o máximo de naturalidade que
fui capaz, e depois expliquei: – O congresso foi
cancelado, acredita?
Então entrei na casa, deixando-o parado
na porta, pálido e sem reação.
– Você estava
cozinhando?
Júlio mal sabia fritar um ovo. Imaginei
que a outra garota estivesse preparando alguma coisa na cozinha, mas não havia
ninguém lá.
– Eu estava tentando – ele conseguiu falar, por fim.
– Inacreditável. Você
nem sabe onde ficam as panelas – eu disse forçando
uma risadinha.
Júlio não conseguia disfarçar o quanto
estava em pânico. Sempre ouvi falar que homens cafajestes também costumam ser
péssimos improvisadores. Acho que é verdade.
– Mas decidi
experimentar. Estou fazendo uma macarronada.
– Que ótimo! Vou
esperar no quarto.
– Não, amor – ele protestou quase gritando, mas em
seguida tentou disfarçar fazendo uma voz faceira: – Fica aqui, por favor. Vou precisar de ajuda.
Eu não estava suportando esse teatrinho,
principalmente agora, quando ele tentava me enganar com seu charme. Júlio era
um homem lindo, mas a sua beleza não significava mais nada e somente ampliava
minha aversão por ele.
– Estou cansada.
– Eu sei, mas fica
aqui comigo.
Ele me puxou pelos braços e tentou me
beijar.
– Estou realmente
cansada – falei calmamente, desviando-me dele.
Quando comecei a caminhar em direção ao
quarto, Júlio passou por mim apressado e ficou parado em frente a porta.
– O que está
acontecendo? – perguntei, mas minha
vontade era dar um soco nele.
– Nada.
Seu rosto estava mais pálido que antes.
– Então deixa eu
entrar no quarto, Júlio.
De repente, os lábios dele ficaram
trêmulos.
Quando passei pela porta, coloquei a
bolsa sobre uma cômoda e depois me sentei na cama. Júlio estava surpreso e
parecia perscrutar o quarto, como se procurasse alguma coisa. Depois de
confirmar que estávamos sozinhos, ele também sentou ao meu lado.
– Você está mentindo
pra mim – falei secamente.
– Por que você está
sugerindo isso?
– Eu não estou
sugerindo, Júlio. Você está mentindo pra mim! – repeti.
Então ele inclinou a cabeça e tentou me
beijar mais uma vez.
Eu levantei da cama
– Eu sempre confiei em
você – comecei a falar, resistindo a vontade de
chorar – Mais do que isso, Júlio, eu acreditei
que você me amava, que desejava construir uma vida ao meu lado. Fui cuidadosa,
atenciosa e respeitei você durante todo esse tempo.
– Eu não estou
entendendo, Lívia.
– Meu Deus, como você
é falso!
– Do que você está
falando?
– Eu estou falando
dela, Júlio.
Então estendi o braço, apontando em
direção a porta do quarto.
Ele virou a cabeça pra trás e viu sua
aluna em pé, encarando-o com olhos raivosos e magoados.
Carol tinha sido tão enganada quanto eu.
Ela não sabia sobre mim, muito menos imaginava que Júlio estivesse noivo de
outra mulher. Foi muito por acaso que ficamos sabendo uma sobre outra, quatro
dias antes, depois de uma conversa casual entre duas amigas em comum. Ela foi a
primeira a me procurar. Disse que também estava decidida a acabar com o jogo
desleal em que estávamos envolvidas.
– Você não é tão foda
quanto pensa, Júlio – ela disse,
esforçando-se também para se manter firme.
Era uma garota bonita, mas muito jovem.
Tinha apenas dezenove anos. Se em algum momento quis odiá-la, a vontade durou
um instante apenas, pois sabia que somente dele eu poderia exigir fidelidade.
Júlio estava calado, completamente
perplexo.
– E pense bem antes de
enganar uma mulher – Carol continuou a
falar. – Quando você quiser começar a agir diferente,
talvez seja a sua vez de sofrer no nosso lugar.
Eu tirei o anel do dedo e joguei sobre
ele.
– Pode ficar. Isso aí
não vale nada e nunca foi meu.
– Calma, Lívia.
– Estou calma, mas não
sou estúpida, Júlio. Enquanto a maioria de vocês pensa com o pênis, nós
raciocinamos com a cabeça e sentimos com o coração. Não somos idiotas.
Então sai do quarto e comecei a andar em
direção a porta da casa.
Carol também me acompanhou.
– Por favor, Lívia,
não faz isso. Eu cometi um erro, mas me perdoa. Por favor, não vai embora.
Ouvi-lo pedir perdão era como ser
enganada mais uma vez.
– Você não cometeu um
erro apenas – eu disse, abrindo a
porta. – Você escolheu me trair. Agora eu escolho
apagar você da minha vida.
Então nós duas atravessamos a rua sem
olhar pra trás.
Depois que entramos no carro, Carol pegou
um envelope que estava no porta-luvas e tirou as fotografias que estavam nele.
Júlio ainda nos observava, implorando
bobagens e prometendo mais mentiras.
Quando passamos por ele, Carol arremessou
todas as fotos pela janela do carro.
As fotografias subiram alto e aos poucos
começaram a se espalhar pelo chão.
Um segundo depois, dobramos a rua e
deixamos tudo pra trás.
Nenhum comentário:
Postar um comentário