quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Fidelidade



Eu sabia que Júlio estava me traindo com uma de suas alunas. Sabia também que em algumas horas ele estaria com ela, divertindo-se como tinha feito nos últimos três meses. Mas ele não esperava que eu soubesse de tudo. Julgava-me ingênua o suficiente para não desconfiar de sua infidelidade. Júlio estava absolutamente enganado, e saberia disso naquela noite.
Enquanto retocava o batom, examinei a minha imagem refletida no espelho e tentei me sentir bonita, embora minhas emoções falassem o contrário. É difícil estar confiante e segura após a descoberta de uma traição. Quando descobrimos as mentiras de um homem, tudo nele se torna desconfiança e, durante algum tempo, as nossas próprias verdades viram incertezas.
Meus cabelos estavam mais curtos e penteados pra trás com algumas presilhas, deixando-me mais jovem e casual. Vestia uma blusa preta sem detalhes, calça jeans simples e uma sandália de salto baixo. Optei por uma maquiagem discreta, que destacasse meus olhos e lábios de maneira suave. Eu não pretendia estar deslumbrante. Quanto mais sensual ou sofisticada eu estivesse, mais longe eu estaria da minha realidade.
Por que algumas pessoas não conseguem ser honestas?, perguntei-me em silêncio, analisando o anel em meu dedo. Quase não pude conter a vontade de lançá-lo pela janela do apartamento, amargurada por ter em minhas mãos o símbolo de uma aliança sem valor, um compromisso desprezível e fugaz. Como eu estava decepcionada! Sentia-me desacreditada, como se Júlio tivesse me roubado a fé. Assim como o anel em meu dedo, o amor, agora, não passava de uma ilusão.
Quando ouvi o toque do meu celular, tirei o aparelho da bolsa e reconheci o contato, embora o número não estivesse salvo na agenda.
Tudo certo? perguntei ao atender.
Sim, espero você lá ­ respondeu uma voz feminina.
Ok.
Olhei-me no espelho mais uma vez, peguei a minha bolsa e deixei o apartamento. Enquanto dirigia tentei evitar todos os pensamentos que pudessem me fragilizar. Eu não queria chorar na frente dele, revelando facilmente toda a minha vulnerabilidade. Desejava fazer daquela noite um momento marcante pra mim, pra ele e também pra outra.
Quando cheguei na casa dele, estacionei o carro a uma distância segura, garantido que ele não poderia me ver. Júlio não esperava que eu fosse aparecer de surpresa, pois acreditou que eu estivesse viajando, participando de um congresso em outra cidade.
Antes de sair do carro, meu celular vibrou e uma mensagem apareceu na tela:
"Saudade de você, amor"
Que detestável! Júlio era capaz de me escrever enquanto estava com outra mulher. Talvez estivessem aos beijos no sofá da sala ou, quem sabe, já estivessem no quarto. Eu significo tão pouco assim? Foi impossível não me sentir humilhada.
Respirei fundo, abri a porta do carro e atravessei a rua.
Depois de tocar a companhia, Júlio me recebeu com olhos arregalados.
Lívia?
Oi, amor falei com o máximo de naturalidade que fui capaz, e depois expliquei: O congresso foi cancelado, acredita?
Então entrei na casa, deixando-o parado na porta, pálido e sem reação.
Você estava cozinhando?
Júlio mal sabia fritar um ovo. Imaginei que a outra garota estivesse preparando alguma coisa na cozinha, mas não havia ninguém lá.
Eu estava tentando ele conseguiu falar, por fim.
Inacreditável. Você nem sabe onde ficam as panelas eu disse forçando uma risadinha.
Júlio não conseguia disfarçar o quanto estava em pânico. Sempre ouvi falar que homens cafajestes também costumam ser péssimos improvisadores. Acho que é verdade.
Mas decidi experimentar. Estou fazendo uma macarronada.
Que ótimo! Vou esperar no quarto.
Não, amor ele protestou quase gritando, mas em seguida tentou disfarçar fazendo uma voz faceira: Fica aqui, por favor. Vou precisar de ajuda.
Eu não estava suportando esse teatrinho, principalmente agora, quando ele tentava me enganar com seu charme. Júlio era um homem lindo, mas a sua beleza não significava mais nada e somente ampliava minha aversão por ele.
Estou cansada.
Eu sei, mas fica aqui comigo.
Ele me puxou pelos braços e tentou me beijar.
Estou realmente cansada falei calmamente, desviando-me dele.
Quando comecei a caminhar em direção ao quarto, Júlio passou por mim apressado e ficou parado em frente a porta.
O que está acontecendo? perguntei, mas minha vontade era dar um soco nele.
Nada.
Seu rosto estava mais pálido que antes.
Então deixa eu entrar no quarto, Júlio.
De repente, os lábios dele ficaram trêmulos.
Quando passei pela porta, coloquei a bolsa sobre uma cômoda e depois me sentei na cama. Júlio estava surpreso e parecia perscrutar o quarto, como se procurasse alguma coisa. Depois de confirmar que estávamos sozinhos, ele também sentou ao meu lado.
Você está mentindo pra mim falei secamente.
Por que você está sugerindo isso?
Eu não estou sugerindo, Júlio. Você está mentindo pra mim! repeti.
Então ele inclinou a cabeça e tentou me beijar mais uma vez.
Eu levantei da cama
Eu sempre confiei em você comecei a falar, resistindo a vontade de chorar Mais do que isso, Júlio, eu acreditei que você me amava, que desejava construir uma vida ao meu lado. Fui cuidadosa, atenciosa e respeitei você durante todo esse tempo.
Eu não estou entendendo, Lívia.
Meu Deus, como você é falso! 
Do que você está falando?
Eu estou falando dela, Júlio.
Então estendi o braço, apontando em direção a porta do quarto.
Ele virou a cabeça pra trás e viu sua aluna em pé, encarando-o com olhos raivosos e magoados.
Carol tinha sido tão enganada quanto eu. Ela não sabia sobre mim, muito menos imaginava que Júlio estivesse noivo de outra mulher. Foi muito por acaso que ficamos sabendo uma sobre outra, quatro dias antes, depois de uma conversa casual entre duas amigas em comum. Ela foi a primeira a me procurar. Disse que também estava decidida a acabar com o jogo desleal em que estávamos envolvidas.
Você não é tão foda quanto pensa, Júlio ela disse, esforçando-se também para se manter firme.
Era uma garota bonita, mas muito jovem. Tinha apenas dezenove anos. Se em algum momento quis odiá-la, a vontade durou um instante apenas, pois sabia que somente dele eu poderia exigir fidelidade.
Júlio estava calado, completamente perplexo.
E pense bem antes de enganar uma mulher Carol continuou a falar. Quando você quiser começar a agir diferente, talvez seja a sua vez de sofrer no nosso lugar.
Eu tirei o anel do dedo e joguei sobre ele.
Pode ficar. Isso aí não vale nada e nunca foi meu.
Calma, Lívia.
Estou calma, mas não sou estúpida, Júlio. Enquanto a maioria de vocês pensa com o pênis, nós raciocinamos com a cabeça e sentimos com o coração. Não somos idiotas.
Então sai do quarto e comecei a andar em direção a porta da casa.
Carol também me acompanhou.
Por favor, Lívia, não faz isso. Eu cometi um erro, mas me perdoa. Por favor, não vai embora.
Ouvi-lo pedir perdão era como ser enganada mais uma vez.
Você não cometeu um erro apenas eu disse, abrindo a porta. Você escolheu me trair. Agora eu escolho apagar você da minha vida.
Então nós duas atravessamos a rua sem olhar pra trás.
Depois que entramos no carro, Carol pegou um envelope que estava no porta-luvas e tirou as fotografias que estavam nele.
Júlio ainda nos observava, implorando bobagens e prometendo mais mentiras.
Quando passamos por ele, Carol arremessou todas as fotos pela janela do carro.
As fotografias subiram alto e aos poucos começaram a se espalhar pelo chão.
Um segundo depois, dobramos a rua e deixamos tudo pra trás.

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