Raquel trouxe paz ao meu desassossego. Quando nos conhecemos, minha vida
estava uma completa bagunça, sem que eu conseguisse encontrar o lugar de cada
coisa. Havia um entulho enorme dentro de mim, cheio de sentimentos pútridos,
emoções extraviadas e pensamentos vencidos, obsoletos. Antes dela, eu estava
sempre disposto a viver a mesmice e afundar cada vez mais nas velharias do meu
passado.
Meus pais são pessoas boas e honestas, mas que projetaram sobre os
filhos o fracasso do matrimônio. Cresci com a aflitiva sensação de ter sido um
fardo, alguém que cometeu o imperdoável erro de ter nascido. Todas as brigas,
acusações e palavras cruéis entre eles sempre voltavam contra mim e meu irmão,
que reagia da sua maneira, enfrentando-os e dizendo tudo o que nunca consegui.
Então descobri que a dor do silêncio supera qualquer punição. A maioria
das tragédias nascem na omissão, na censura e no medo de verbalizar o que se
sente. Quem dera se toda raiva e amargura guardadas fossem manifestadas. Certamente
eu teria conhecido a liberdade mais cedo e aprendido a lidar com a minha
própria desordem.
Mas se demorei tanto é porque Raquel ainda estava chegando. Ela foi se
aproximando devagar, ganhando-me sem fazer barulho, afastando os móveis
empoeirados até que tomou conta de tudo e foi colocando cada coisa no seu
canto. Ajudou-me a desfazer a bagunça, jogar fora o que não me servia mais e
aproveitar o que ainda tinha algum significado. Ela foi tudo pra mim. Tudo o
que eu mais precisei.
Então, como dizer
que não ama mais?
Com os braços ao redor dela, eu pensava o quanto Raquel tinha me feito
feliz. Ela não apenas deu novo sentido a minha vida, como trouxe humor e
otimismo aos meus dias. Nossas conversas eram divertidas e até as brigas
acabavam em riso. Não havia complicações entre nós. Tudo era simples.
Brincávamos de namorar sério, pois tudo o que experimentamos foi quase sempre
maduro, quase sempre aprendendo coisa nova e o tempo todo como entrada livre para
o parque de diversões.
Eu não te amo
mais, eram as palavras que repetiam na minha
cabeça.
Em silêncio, Raquel me abraçava e eu sentia o cheiro dos seus cabelos. Eu
não sabia como sair dali, muito menos o que eu deveria dizer. Nenhuma palavra
parecia fazer sentido e qualquer outra atitude, senão aproveitar aquele momento
ao lado dela, seria um grande e penoso absurdo. Quanto tempo mais teríamos
juntos?
É assustador como tudo muda de repente. Sentimentos, planos, escolhas...
Nada tem garantia. Tudo é mutável e simplesmente deixa de existir. Eu sempre
pensei que ficaríamos juntos por muitos anos, talvez a vida inteira. Mas eu
estava errado. Raquel estava errada. Nosso namoro mudou. Ela também.
Como dizer que o
amor acabou?
Até hoje eu não sei, mas Raquel sabia. Raquel disse. Suas palavras foram
claras e indubitáveis. Ainda posso ouvi-las, tão claramente como se as
escutasse pela primeira vez. O sentimento também é nítido. É frustração o que
sinto.
“Eu não te amo
mais, Renan”
Depois disso, Raquel encostou o rosto em meu peito e começou a chorar.
Não hesitou. Não explicou. Ela não me amava mais e não poderia voltar atrás.
Admito que não sei se seu choro era de saudade ou se apenas lamentava me
magoar. Mas sei que a dor do meu silêncio soava mais alto que a tristeza do seu
prato.
– Você consegue me perdoar? – ela perguntou, sem tirar o rosto do meu
peito.
– Você acha que eu poderia culpá-la por não me amar mais?
Raquel então olhou pra mim e levou as mãos ao meu rosto.
– Desculpa. Você é maravilhoso. Eu ainda amo você, mas de um jeito
diferente. Você consegue continuar na minha vida? Eu não quero perder você.
O rosto dela tão próximo do meu me fez estremecer.
Eu consigo ficar
na sua vida ainda que você não me ame?
Desviei meus olhos do olhar dela, soltei seu corpo dos meus braços e me
afastei por um instante.
Até ontem você me
amava, era o que eu queria dizer. Por que você não me falou antes? Por que foi
alimentando meus sentimentos para podá-los de uma só vez?
Parte de mim queria odiá-la por isso. Mas a outra parte não conseguia
negar que até ontem ela tinha sido fiel e generosa, cuidando de mim sem perder
o calor. Se o amor que ela me dedicou durou até ontem, eu posso dizer que até
ontem ela me amou de verdade.
– Desculpa, mas eu não consigo – foi a minha resposta.
Coloquei minhas mãos em seus ombros e a puxei pra perto de mim mais uma
vez. Beijei-a na testa, depois na ponta do nariz e encostei meus lábios nos
seus.
– Acho que vou te amar pra sempre – sussurrei em seu ouvido.
Depois me afastei, deixei a varanda da casa e caminhei em direção a
porta.
Ao olhar pra trás, Raquel enxugava as lágrimas e me encarava inexpressiva.
Essa foi a última vez que eu a vi.
:) Passando para ler, tudo por aqui
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